Título: Há cura para o mal do século XXI?
Autor: Steven Metz
Fonte: Jornal do Brasil, 12/02/2006, Internacional, p. A16
O terrorismo muito provavelmente vai marcar 2006 mais do que qualquer outro ano desde 2001. No futuro, historiadores tenderão a rotular o início do século XXI como a ¿Era do Terrorismo¿. Como em toda nova era, ainda não entendemos inteiramente o que está acontecendo, nem por que. A maior parte do mundo reconhece o problema, mas há muitos pontos de vista diferentes acerca das causas e soluções. Até onde sabemos, o terrorismo é alimentado pelo ódio e pela frustração. A inabilidade dos radicais de atingir objetivos políticos de forma pacífica inspira ações fanáticas e justifica formas de violência normalmente inaceitáveis.
A partir desse ponto básico, no entanto, há menos convergência de opiniões com relação a por que a frustração e o ódio levam ao terrorismo em alguns casos, mas não em outros.
Além disso, há duas escolas de pensamento para definir qual deveria ser a resposta apropriada quando os dois sentimentos exacerbam a violência dos extremistas.
Uma das escolas acredita que o terrorismo moderno não pode ser eliminado, ou que os custos seriam inaceitavelmente altos. Para esse grupo, a única saída lógica é ¿driblar¿ a crise, acabando com políticas que incitem o ódio e a frustração e desenvolvendo seus serviços de Inteligência e sistemas de defesa.
A segunda escola de pensamento defende que o terrorismo pode ser erradicado ao se atacar as raízes de sua motivação. Ironicamente, os que concordam com essa análise referem-se aqui tanto ao presidente dos Estados Unidos George Bush como a Osama bin Laden. Para o líder afegão e seus seguidores, o ódio e a frustração no mundo islâmico são causados pela repressão externa e pela exploração dos muçulmanos. Se a perseguição terminar, também o terror terá um fim.
Até lá, todos os meios são legítimos na luta contra um inimigo poderoso e maléfico. O terrorismo, para Bin Laden, é o único método eficaz para atacar o Ocidente. ¿É permitido¿, segundo seu aliado no Iraque, Abu Musab Zarqawi, ¿derramar o sangue infiel¿.
George Bush, em contraste a isso, acredita que o terrorismo está arraigado à ausência de oportunidades políticas e econômicas. Em vez de se agarrar isso, radicais como o chefe da Al Qaeda culpam os estrangeiros, particularmente Estados Unidos e Europa. Mas a solução definitiva, segundo Bush, é a criação de sistemas justos e flexíveis para eliminar o ódio e a frustração pacificamente. Os extremistas poderiam continuar a existir, mas seriam marginalizados e encontrariam poucos militantes e simpatizantes.
Infelizmente, todas as abordagens têm equívocos. A crença de que o terrorismo não pode ser erradicado parte do princípio de que a abilidade de tolerar ataques ¿ ¿driblar¿ a crise ¿ é maior do que o desejo dos terroristas de persistir, ou mesmo aumentar os atentados. Ao assumir uma posição passiva, essa tese poderia prolongar a ¿Era do Terrorismo¿
Além do mais, o processo de pacificação é baseado na perigosa conclusão de que os objetivos dos extremistas são limitados; ao conseguir o que querem através da violência, passarão a ser integrantes responsáveis da comunidade mundial.
A posição de Bin laden ¿ que o terrorismo vai acabar quando o mundo islâmico expulsar a influência externa ¿ é eticamente e analiticamente equivocada. Por um lado, iria condenar milhões a viver nas teocracias repressoras do Irã ou dos talibãs. Por outro lado, a concepção de que a pobreza e a repressão no mundo islâmico são arquitetadas no exterior simplesmente não se sustenta.
Finalmente, a crença de que democracia e reforma econômica vão eliminar o terrorismo em sua raiz é baseada numa série de conclusões que podem ou não ser confirmadas. A idéia parte, por exemplo, do princípio de que terroristas não compreendem seu próprio ódio. Mas extremistas dizem explicitamente que é causado pela injustiça do sistema global e das políticas repressoras de nações poderosas. As economias e e os sistemas políticos fechados no mundo muçulmano, argumentam, são sintomas, não causas.
A posição de Bush também parte do princípio de que uma mudança fundamental é viável; que sistemas abertos podem ser sustentados por um esforço modesto porque o desejo por liberdade e prosperidade é universal.
Embora seja verdade, não está claro que o desejo de tolerar a liberdade do outro, o que exige a democracia, está disseminado igualitariamente. Em algumas sociedades, a democracia é simplesmente uma forma de a maioria reprimir a minoria. Em outras, ter estabilidade ou Justiça é mais importante do que liberdade política.
Finalmente, essa perspectiva reside no princípio de que as democracias vão controlar o radicalismo e destruir os extremistas. Mas a História sugere que democracias novas e frágeis têm mais tendência a aplacar os radicais do que eliminá-los, e que os terroristas podem explorar o respeito dos governos democráticos pelos direitos humanos e pela lei.
A terrível verdade é que a incapacidade de eliminar as causas do terrorismo certamente vai extender a ¿Era do Terrorismo¿. Não está claro que podem ser realmente eliminadas.
Apaziguar os extremistas pode até ser fácil, mas pode não funcionar. Permitir que vençam significaria aceitar a supremacia do mal. Promover a democracia poderia ser a solução definitiva. Mas isso estaria apoiado em conclusões ainda não testadas sobre o mundo e a diversidade de culturas.
Infelizmente, o mundo chegou a um ponto de onde pode se ver o perigo do terrorismo, mas não a cura. Pior: esta pode nem existir. (Project Syndicate)