Título: 'Temos a solução para o Irã'
Autor: Owen Matthews
Fonte: Jornal do Brasil, 14/02/2006, Internacional, p. A14

Ao anunciar, ontem, a retomada do enriquecimento de urânio, o Irã esquentou ainda mais a crise em torno de seu programa nuclear. Em entrevista à Newsweek, Sergei Kiriyenko, diretor da RosAtom, a agência atômica russa, diz que espera impulsionar a indústria nuclear de seu país vendendo urânio enriquecido para Teerã. A proposta foi inicialmente rejeitada pelo país islâmico, mas depois que a questão foi levada ao Conselho de Segurança, Kiriyenko acredita conseguir uma saída pacífica para o caso, ao se reunir, essa semana, com o governo iraniano

- Como está o andamento das negociações com o Irã?

- O Irã já concordou em retornar seu combustível nuclear usado para a Rússia. Isso garante que o plutônio não será extraído para fabricar armas. Em segundo lugar, colocamos uma proposta na mesa para a criação de uma parceria para enriquecimento de urânio em território russo. Em troca, o Irã receberia urânio enriquecido, mas sem o acesso à tecnologia. Mandaríamos o combustível pronto, e, depois de usado, recolheríamos o lixo nuclear. Isso significa que controlaríamos dois estágios sensíveis. Assim, não haveria o risco de o desenvolvimento de energia nuclear no Irã se transformar em proliferação.

- Você acredita que os iranianos aceitarão a proposta ?

- A proposta está na mesa. Nossas conversas estão no estágio dos detalhes financeiros, técnicos e legais. Os termos de nossas ofertas estão claros e abertos à comunidade internacional. Está com o Irã aceitar ou não.

- Você acredita que o projeto de Teerã é somente para fins pacíficos?

- Não acho que seja uma questão de acreditar. A segurança e a lei internacionais não podem ser baseadas em confiança. Os países que obedecem às normas internacionais e são inspecionados pela Agência Internacional de Energia Atômica têm o direito de desenvolver energia atômica. Mas, a posição da Rússia para o Irã é que não é permitido violar os princípios de não-proliferação. Acredito que temos uma solução para o problema iraniano.

- Como você pode ter certeza de que a tecnologia para energia nuclear vai ficar separada daquela para armas atômicas?

- Os países sem programa nuclear querem acesso a energia barata. Negar essa energia é violar uma lei internacional. É discriminação. Nossa posição é a de que temos de ajudar esses países a escaparem da ''pobreza energética''. Ao mesmo tempo, é nossa responsabilidade prevenir qualquer ameaça de proliferação. Senão, teremos situações parecidas com a que vemos agora com o Irã, com outros países. Os países com matriz energética devem acordar uma estrutura, não apenas achar uma solução para cada caso.

- Como seria essa estrutura?

- O presidente Vladimir Putin sugeriu quatro vertentes de cooperação: a criação de centros internacionais de enriquecimento de urânio do tipo que propomos ao Irã; centros internacionais para o reprocessamento e armazenamento de combustível usado; centros de treinamento para o pessoal de usinas; e o esforço mundial para pesquisar novas tecnologias nucleares resistentes à proliferação. Muitas dessas idéias são apoiadas pelo presidente dos Estados Unidos, George Bush.

- Você está dizendo que os EUA deveriam construir centros de enriquecimento também?

- Seria muito bom se os EUA pudessem viabilizar esses centros em seu território. Há muitos países que podem ajudar. Assim, consumidores de energia nuclear poderiam escolher.