Título: Pirataria chega às cervejas
Autor: Ana Paula Verly e Waleska Borges
Fonte: Jornal do Brasil, 14/02/2006, Rio, p. A8
No carnaval, há quem se fantasie de pirata. Mas o disfarce, quando usado no mercado negro, pode afetar até um dos ingredientes mais procurados no calor da folia: a cerveja. A localização, sábado, de um lote de cerveja disfarçado com um rótulo de marca mais cara coloca em dúvida o gosto na boca dos consumidores. Enquanto a polícia procura pela procedência do lote, que pode ser roubado, os foliões desprevenidos estão sujeitos à compra de gato por lebre. Para driblar o freguês, o falsificador utiliza máquinas que trocam rótulos e tampinhas de marcas famosas. - Além de ser uma concorrência desleal, a venda de cerveja não legalizada é uma questão de saúde pública - alerta Darcílio Junqueira, superintendente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), que representa 1.800 associados.
Segundo Junqueira, no período do carnaval, a venda de bebidas nos pontos de comércio tradicionais da cidade aumenta em até 20%. Ele ressalta que também cresce a presença de ambulantes nas ruas. O superintendente do Sindicato Nacional da Cerveja (Sindcerv), Marcos Mesquita, diz que a clonagem de cerveja não é um crime isolado.
- O falsificador não consegue ter lucro apenas com a troca de rótulos. Por isso, ele usa carga roubada - diz Mesquita.
O delegado Ricardo Halack, da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas, não acredita que as cervejas roubadas de carretas tenham os rótulos adulterados.
- Geralmente, a carga roubada já é de uma cerveja nobre vendida mais barata nos bares da comunidade - observa Halack.
De acordo com o delegado substituto da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial, Robson da Silva, a clonagem de cervejas é feita em regiões da Baixada Fluminense e na periferia.
Em Irajá, as cervejas com rótulos adulterados eram vendidas em um depósito. O proprietário José Rego, 50 anos, foi detido sábado por policiais da 27ª DP (Vicente de Carvalho). O delegado Otílio Bezerra ainda apura se Erlite Trindade, 35, acusado de ser o responsável pela falsificação, e José têm passagens pela polícia. A ação resultou na apreensão de 15 caixas com 24 cervejas cada uma - a maioria da marca Cristal, armazenada em embalagens falsas da Brahma. As bebidas estavam na casa de Erlite. Também foram apreendidas uma máquina de lacrar garrafas e cerca de 6 mil chapinhas.
Segundo a polícia, a dupla agia há cinco meses. Erlite contou que José era o seu único cliente e que recebia R$ 3 para ''transformar'' uma caixa de Cristal em Brahma. Erlite desenvolveu uma técnica para molhar os rótulos da Brahma e retirá-los, sem que rasgassem. As chapinhas eram compradas pelo acusado de catadores por R$ 2,50 o quilo. José vendia a cerveja pelo preço da Brahma em seu depósito, próximo à Favela Pára-Pedro. José e Erlite vão responder em liberdade pelo crime de fraude de bem ou serviço por meio de falsificação de embalagem. A pena é dois a cinco anos de detenção em regime semi-aberto.