Título: De devedor a credor de dólares
Autor: Fernando Nakagawa e Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 16/02/2006, Economia & Negócios, p. A17
As atuações do Banco Central no mercado cambial gerou uma situação inusitada no primeiro mês do ano. Com a maior oferta de contratos de swap ¿ o governo troca títulos remunerados em dólar por outros atrelados à taxa de juros ¿, a parcela da dívida mobiliária atrelada ao câmbio ficou negativa em janeiro. Ou seja, o governo terminou o mês com posição ¿ativa¿ no dólar, o que significa que o governo ficou com a moeda americana em caixa. Contabilizadas todas as operações de swap, o governo fechou janeiro com créditos de R$ 5,56 bilhões em dólar. Como o contrato de swap paga a diferença entre as duas taxas, ao mesmo tempo em que o governo consegue reduzir a dívida cambial ao colocar contratos na praça é necessário aumentar a posição em papéis atrelados à taxa Selic. Assim, a parcela da dívida que é pós-fixada ¿ ou seja, a remuneração varia de acordo com os movimentos da taxa básica de juros (Selic) ¿ cresceu e ficou em 52,6% do total, representando R$ 518,05 bilhões. Entretanto, essa parcela da dívida teve a menor participação desde outubro de 2001.
Para o chefe do departamento de mercado aberto do Banco Central (Demab), Ivan de Oliveira Lima, a colocação mais forte de contratos de swap não representa uma mudança de rumos na estratégia do governo de reduzir a exposição aos papéis pós-fixados.
Segundo ele, é preciso olhar o cenário com olhos no médio e longo prazo, período em que continua sendo seguido o objetivo de reduzir a vulnerabilidade da economia brasileira. Para ele, o aumento da parcela atrelada à taxa Selic é apenas momentânea.
Vale observar, contudo, que a dívida interna é, normalmente, contabilizada sem os contratos de swap.
Pelos cálculos do economista-chefe do banco europeu BNP Paribas, Alexandre Lintz, ao longo dos primeiros 15 dias deste mês, o governo elevou sua parcela credora em dólares em US$ 2,4 bilhões. Ou seja, já dobrou a vantagem em moeda estrangeira.
¿ A exposição do governo é a menor já registrada, o que significa que, para onde quer que o câmbio vá, a dívida não se mexe ¿ diz Lintz.
Com a redução da dependência do país em moeda estrangeira, que já chegou a 40%, o risco país vem batendo recordes históricos de baixa.
Segundo Lintz, isso se explica justamente graças à redução da exposição cambial, além da execssiva liquidez externa.
¿ Concordo que se o governo tivesse mantido sua posição em dólar, hoje a relação dívida/PIB (o principal indicador de solvência de um país) estaria em um nível mais baixo, mas as ações do Tesouro para reduzir a dívida em dólar tiveram efeito importante na redução do risco ¿ afirmou Lintz.
Além da liquidez externa, ou seja, grande volume de recursos disponível lá fora, outro fator que vem contribuindo para oferta de dólares no país ¿ o que possibilitou ao governo reduzir sua dívida cambial ¿ são as promessas do governo para atrair a credibilidade do investidor estrangeiro. Na última semana, o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, informou que o governo vem resgatando lá fora títulos com vencimento até 2010, o que derrubou a curva de juros do país.
Segundo Lintz, os juros pagos pelo Brasil em prazo de três anos já está mais baixa que a americana. A diferença é pequena, de 5% para o Brasil e 5,1% a libor.
¿ O governo está comprando (os títulos) e ninguém quer vender. E como todos agora sabem que ele (o governo) vai se manter assim, a taxa só cai ¿ explica Lintz. Segundo ele, esse efeito baixista vinha acontecendo desde a virada do ano, mas somente após o anúncio feito por Levy os economista puderam matar a charada.
O ano começou com outra mudança importante na composição da dívida pública interna. Foi observado aumento da demanda por títulos prefixados e aqueles atrelados a índice de preço. Isso porque o mercado está prevendo uma queda acentuada da Selic. Com a previsão de que a Selic vá cair, os investidores optam pelos títulos com rendimento prédeterminado.
Ainda que com perfil melhor, no mês passado, a dívida interna total cresceu 0,5% em relação a dezembro de 2005, para R$ 984,93 bilhões.
Em janeiro, as Letras Financeiras do Tesouro (LFT) ¿ títulos pós-fixados que seguem a taxa Selic ¿ responderam por 49,48% da dívida interna sem contar os contratos cambiais, com total de R$ 487,35 bilhões no mercado.
Em dezembro, o papel teve participação de 51,77% e um ano antes, em dezembro de 2004, a parcela havia sido de 57,14%.
Além da menor demanda pelo papel, houve resgate líquido de R$ 27,1 bilhões em LFT no mês passado, informaram o Tesouro e o Banco Central em nota conjunta sobre a dívida. Boa parte desses resgates ocorreu porque os investidores trocaram os títulos por Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B) ¿ que pagam a variação do IPCA acrescida de juro real.
No mês passado, as NTN-B tiveram participação de 19,15% no total da dívida e os demais papéis (ainda na contabilidade sem os contratos de swap) responderam por 2,55% (cambiais) e os atrelados à TR, 2,12%. Contando os swaps, a parcela da dívida atrelada à taxa básica de juros (Selic) ficou em 52,6%.