Título: País maduro
Autor: José Arthur Assunção
Fonte: Jornal do Brasil, 16/02/2006, Outras Opiniões, p. A15

As eleições presidenciais estão chegando e não existe qualquer indício de que viveremos, esse ano, nada semelhante ao que ocorreu em 2002, quando o país mergulhou numa crise de confiança sem precedentes.

Na época, o medo da provável chegada de um governo de esquerda ao poder era grande. Haveria ruptura de contratos? Seria um governo populista? Enfim, Lula iria governar o Brasil para todos os brasileiros ou para uma meia dúzia de ''companheiros''?

Àquela altura, não tínhamos ciência de que o Brasil já havia avançado muito. Principalmente nos campos econômico e institucional. Era pouco provável que Lula ou qualquer outro candidato que chegasse ao Palácio do Planalto fizesse do Brasil o que, por exemplo, Hugo Chávez está fazendo da Venezuela.

Mas o fato é que os indicadores econômicos sofreram reveses fabulosos no transcorrer de 2002. Estivemos à beira de um colapso da dívida pública e não dispúnhamos mais de linha de crédito lá fora. Nem a famosa Carta aos Brasileiros, formulada pelo PT, acalmou os mercados àquela altura.

Era uma situação desesperadora. Mas sempre que fazíamos uma avaliação criteriosa, os fundamentos da economia se mostravam estáveis. Tanto que o Fundo Monetário Internacional (FMI) nos deu um senhor aval, ao nos emprestar US$ 30 bilhões.

O ano de 2002 foi um dos mais difíceis da história recente e já vínhamos de um dificílimo 2001, com a lamentável crise de energia no Brasil e um 11 de Setembro nos Estados Unidos que mexeu com os alicerces do mundo.

Pois bem, duas semanas antes do primeiro turno da eleição presidencial, o risco-Brasil bateu a marca dos 2.500 pontos. Naquele momento, pensei que o país tivesse entrado mesmo no olho do furacão. Mas foi dali que renasceu das cinzas. Sempre que fazíamos uma avaliação criteriosa, os fundamentos da economia se mostravam estáveis. Tanto que o FMI nos deu um senhor aval, ao nos emprestar US$ 30 bilhões.

Estamos agora a oito meses de mais uma eleição presidencial. Nesses anos em que Lula governou o país, é inegável que houve muitos avanços: na democracia, na economia, na consolidação das instituições. Não me interessam aqui posicionamentos partidários nem mesmo se Lula sabia ou não das falcatruas do tesoureiro do PT. Estou falando de avanços.

Todos, principalmente os agentes econômicos, temiam que a esquerda no poder fosse trazer atraso. Mas, ao contrário, o Brasil avança. E olha que, durante esse mesmo governo, teve início uma crise política que parece não ter fim. Na qual o grande alvo foi o partido do governo. Mesmo assim, não houve perda de governabilidade em nenhum momento e o país segue avançando. Às vezes menos do que deveria e do que poderia, mas avança.

Temos hoje uma conjuntura partidária que permite visualizar um quadro sucessório bastante estável. Pelo que tudo indica a eleição ficará novamente polarizada entre PT e PSDB e pelos mesmíssimos candidatos do pleito anterior: respectivamente, Lula e José Serra. Poderá existir uma terceira via, o PMDB, com Garotinho ou mesmo com Germano Rigotto, mas que não deverá promover grandes surpresas.

Resultado: nada vai mudar na economia. Os especuladores vão ter de ser muito mais criativos se quiserem botar fogo outra vez no país.

Não parece que vá haver mudanças significativas na percepção de risco do país, que hoje é o mais baixo de todos os tempos, beirando os 250 pontos. E tem gente assegurando que em pouquíssimo tempo seremos investment grade.

O Brasil já viveu ditaduras, hiperinflações reincidentes, um grande confisco de poupança, crises cambiais, apagão, crise de confiança e, por fim, uma crise política sem precedentes. Mesmo assim, o país está seguindo a passos largos para a consolidação de sua democracia e de sua economia em níveis de Primeiro Mundo, nas próximas décadas.

Muito há de ser feito ainda pelo atual presidente, pelo próximo que vier, seja Lula ou não e pelos outros tantos que governarão esse país. Mas uma coisa é certa: basta trabalhar sério, com afinco, que o Brasil vai continuar dando grandes saltos.

E quem apostar as fichas em crise este ano, por conta das eleições, vai perder dinheiro.