Título: Brasil vai lucrar com aftosa argentina
Autor: Fernando Nakagawa
Fonte: Jornal do Brasil, 10/02/2006, Economia & Negócios, p. A20

Governo admite que doença no vizinho deve facilitar queda de embargos contra carne nacional

BRASÍLIA - Representantes do Ministério da Agricultura admitiram ontem que a descoberta de foco de febre aftosa na Argentina pode ser uma boa oportunidade comercial para o Brasil. Isso porque a suspensão da importação de carne produzida no país vizinho em vários mercados pode acelerar a derrubada do embargo à produção brasileira. Chile e Rússia podem ser os primeiros a reabrir os mercados ao Brasil.

Um dia depois de a Argentina notificar o foco da doença no departamento de San Luis del Palmar, na província de Corrientes, no norte do país, ao menos cinco nações já haviam anunciado a interrupção da compra de carne argentina: Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai. Agora, é esperado o anúncio do embargo russo e há expectativa de que a União Européia tome a mesma decisão nos próximos dias.

Após lamentar a ocorrência da doença no país vizinho, o diretor de Promoção Internacional do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Ricardo Cotta Ferreira, admitiu que o caso pode trazer boas notícias para os produtores brasileiros. Ele lembrou que a Argentina era, para os países que decidiram pelo embargo, a ''outra opção'' para fornecer carne bovina. Além de Brasil e Argentina, outro grande produtor, os Estados Unidos, registraram, em 2004, um caso de vaca-louca.

- Essa pode ser uma oportunidade, pois pode precipitar a reabertura de mercados - citou, ao lembrar que o Brasil, independentemente disso, mantém missões técnicas em diversos países para tentar recuperar antigos clientes.

Segundo ele, estão sendo feitos trabalhos no Chile, Rússia, União Européia e Argélia, entre outros mercados.

- No caso da Rússia, já existe acordo prévio fechado pelo secretário-executivo do ministério, Luís Carlos Guedes Pinto. Ainda não há data marcada, mas esperamos que isso aconteça.

Ferreira citou que uma das possibilidades é que isso aconteça após a reabertura dos portos russos, com o final do período mais rígido do inverno.

Esse clima de ânimo no Ministério da Agricultura foi reforçado pelo secretário de Defesa Agropecuária, Gabriel Maciel, que também lamentou a ocorrência da doença no país vizinho. Em seguida, no entanto, também admitiu que o caso pode favorecer o Brasil.

- O comércio é assim. Quando um perde, outro ganha.

Maciel aproveitou para informar que uma missão técnica está negociando a queda do embargo à carne brasileira no Chile, país que também estava adquirindo a carne argentina como alternativa. Apesar dessas indicações com a possibilidade de novos negócios, Ferreira admite que a notícia é ruim para o Mercosul.

- É ruim para o Brasil e a Argentina. Os dois países que querem ser os principais fornecedores de carne bovina do mundo. Isso apenas revela a necessidade de uma solução integrada, conjunta, para esse problema - disse Ferreira.

Ontem, o Ministério da Agricultura divulgou nota em que comunica que decidiu ampliar o embargo à carne argentina. O texto informa que estão suspensas temporariamente as importações de todo o território argentino de animais vivos suscetíveis à febre aftosa - bovinos, caprinos e suínos, além de carne com osso e carne não maturada, entre outros subprodutos. Só está permitida a importação de carne industrializada e carne sem osso. Na quarta-feira, após ser notificado da doença na Argentina, o governo havia embargado apenas os animais e produtos vindos do departamento de San Luis del Palmar.