Título: Em via de uma parceria prática
Autor: Serguei Lavrov
Fonte: Jornal do Brasil, 22/11/2004, Internacional, p. A9
Putin no Brasil
Ocorre neste momento um importante passo nos 176 anos de relações diplomáticas entre a Federação Russa e o Brasil: a visita do presidente russo, Vladimir Putin, a este maior país da América do Sul. Há alguns anos, falamos que entre os nossos países formava-se uma parceria estratégica, de longo prazo e de caráter mutuamente vantajoso, não sujeita a oscilações de conjuntura. Hoje, há a necessidade de levar as relações bilaterais a um nível qualitativamente mais alto, isto é, à parceria prática. Na esfera material, avançamos conseqüentemente à formação de uma aliança tecnológica nas áreas de elevado investimento científico ¿ espaço cósmico, produção de energia, cooperação científico-técnica e militar-técnica.
Os nossos países são unidos ainda pela aspiração a construir um novo e mais justo sistema de relações internacionais, pela convenção de que a sua base inabalável devem ser as disposições da Carta da ONU, a primazia do direito internacional e dos princípios da democracia e do respeito dos direitos e liberdades do homem rejeitando as atitudes de força unilaterais.
As posições de Moscou e Brasília são bastante próximas ou coincidem em relação aos problemas internacionais mais atuais. No Conselho de Segurança da ONU (o Brasil é seu membro não permanente em 2004-2005) expressamos solidariamente a preocupação com a manutenção da situação explosiva no Iraque, manifestamo-nos pela regularização mais rápida possível da situação no Oriente Médio e a normalização definitiva da situação no Afeganistão e Haiti. Atos de agressão sem precedentes perpetrados pelo terrorismo internacional, como o ataque à escola de Beslan, não deixaram indiferentes os parceiros brasileiros.
Moscou e Brasília manifestam-se como aliados e interagem estreitamente no formato multilateral, especialmente no projeto russo-bielorrusso de resolução na ONU ¿sobre a inadmissibilidade da atividade que possa contribuir para a instigação do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância¿. Na Rússia estuda-se com atenção a iniciativa brasileira sobre a luta contra a fome e a miséria no mundo.
É característico que os pontos de vista da Rússia e Brasil coincidam em muito na política mundial. Tenho em vista a reforma das Nações Unidas e dos seus órgãos, em primeiro lugar do Conselho de Segurança.
Nos últimos anos, ouvimos opiniões de que o papel da ONU estaria diminuindo e que esta organização universal não seria capaz de cumprir as funções de garantir a estabilidade e segurança mundiais. Não é verdade. Seu potencial é praticamente inesgotável. Por muitos anos representei a Rússia na ONU e conheci de perto as suas potencialidades.
As Nações Unidas continuam a ser os principais mecanismos de solução dos problemas internacionais e de manutenção da segurança e estabilidade no mundo. Sei que uma opinião análoga apóia o meu colega e chanceler do Brasil, Celso Amorim.
Em quase 70 anos de existência, a ONU sempre deu provas de flexibilidade. Sua reforma não é uma tentativa de superar a crise, como alguns apresentam, mas uma etapa natural de desenvolvimento da organização.
A reforma da ONU é necessária para elevar a eficácia da própria organização e das decisões tomadas por ela. A nossa posição em relação à reforma de seu órgão-chave, o Conselho de Segurança (CS), continua a ser construtiva e bastante flexível. Manifestamo-nos para que o alargamento do CS obtenha o máximo apoio entre os países participantes e não leve, mesmo provisoriamente, à redução da sua eficácia. É por isso que nos expressamos conseqüentemente pela manutenção do estatuto dos atuais membros permanentes, sobretudo do direito de veto.
Com atenção, reagimos à aspiração natural do Brasil, como potência regional influente que contribui dignamente para a estabilidade internacional, a obter um lugar de membro permanente no Conselho de Segurança. Quero destacar: a Rússia está disposta a apoiar a candidatura do Brasil aos membros permanentes do CS da ONU, no caso de alcançarmos um amplo consentimento em relação ao alargamento do Conselho de Segurança em categorias de seus membros permanentes e não-permanentes.
Estamos satisfeitos de que o Brasil se dá conta de que a qualidade de membro permanente do CS não é só um elemento do prestígio de política externa, mas também uma responsabilidade colossal ¿ pelas decisões tomadas, pelo processo de seu cumprimento e pelo resultado. Esta madureza política e prontidão moral do Brasil determinaram em muito a nossa posição sobre a aspiração do país em ocupar um lugar permanente no CS.
Quero lembrar por fim que nossos países e povos têm muitos traços comuns , dos pontos de vista geográfico, sociológico e econômico. E é extremamente importante que não temos os interesses de contraposição, o que vale muito para dinamizar as relações e levá-las a um nível mais alto ¿ o de parceria prática.
Tenho a certeza de que a visita de Putin ao Brasil será um passo eficaz neste sentido.