O Globo, n. 32.294, 06/01/2022. Política, p. 7

Twitter é pressionado a combater desinformação
Marlen Couto e Rayanderson Guerra



Em meio à pressão para que aplique com mais rigor as políticas contra disseminação de desinformação sobre Covid-19, o Twitter entrou ontem para os assuntos mais comentados da própria plataforma. Uma campanha com a hashtag “#TwitterApoiaFakeNews” alcançou mais de 40 mil menções, impulsionadas por críticas à política da rede social para combater mensagens falsas.

A mobilização ganhou força após a blogueira bolsonarista Bárbara Destefani, alvo de investigação que apura a disseminação de fake news, receber um selo de verificação da plataforma — concedido a personalidades “proeminentemente reconhecidas” de acordo com os critérios de notabilidade do Twitter.

Nas postagens, os usuários destacam o fato de a plataforma ainda não oferecer no Brasil a possibilidade de denunciar publicações com mensagens falsas sobre a Covid-19, como ocorre em outros países, entre eles os Estados Unidos. A campanha também questiona a verificação de contas bolsonaristas que espalham conteúdos enganosos sobre a vacinação contra a doença, inclusive de investigados por fake news no Supremo Tribunal Federal (STF).

O caso mais recente foi justamente o de Bárbara Destefani, que já foi recebida no ano passado pelo presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Seu perfil foi apontado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, como parte de um mecanismo de criação e divulgação de notícias falsas contra instituições. O ministro chegou a pedir a quebra de sigilo de identidade do perfil por ser batizado de @taoquei1 e não levar o nome de Bárbara.

Em setembro de 2020, a conta também foi alvo de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a pedido da Polícia Federal, que determinou a desmonetização de perfis ligados a 11 influenciadores digitais, três veículos de mídia (Terça Livre, Folha Política e Jornal da Cidade Online) e um movimento político (Nas Ruas) apoiadores do presidente, acusados de propagar mensagens falsas sobre o processo eleitoral.

Além de ataques ao STF, com apoio a manifestações antidemocráticas, a página já divulgou peças de desinformação, incluindo compartilhamento de mensagem a favor da utilização da cloroquina no tratamento da Covid-19, medicamento que não funciona contra a doença, e com afirmação de que a vacina CoronaVac tem baixa eficácia. O nome de Bárbara também é citado no relatório da CPI da Covid, no trecho que trata de blogueiros que disseminaram desinformação durante a pandemia.

Em nota, o Twitter explicou que o selo azul de verificação tem por objetivo “confirmar a autenticidade de uma conta, ou seja, dar às pessoas na plataforma a certeza de que quem está por trás de perfis de alto alcance e engajamento é mesmo quem diz ser”: “Fizemos uma revisão da nossa política e recentemente anunciamos a abertura do processo de solicitação para verificação de perfis. Com a atualização, as pessoas podem submeter solicitações e, caso atendam aos critérios (...), o selo é concedido”. A plataforma disse ainda que está testando, por enquanto nos EUA, na Coreia do Sul e na Austrália, a possibilidade de as pessoas denunciarem conteúdos que estejam potencialmente em violação de suas regras sobre informações enganosas relacionadas à Covid-19.

Ao GLOBO, Bárbara Destefani rebateu as críticas à verificação do seu perfil:

— Acredito que isso é uma perseguição ideológica a uma mulher, mãe, dona de casa, que produz seu conteúdo sozinha. Nossa sociedade machista tem dificuldades em aceitar o sucesso de mulheres, trabalha para sabotá-las e é o que eu estou sentindo agora.

Professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade da Virgínia, nos EUA, David Nemer alerta que a verificação funciona como uma espécie de validação do perfil:

— A verificação é problemática por vários motivos. Por mais que o Twitter fale que não é um endosso, sabemos que a verificação é percebida pelos usuários como uma validação. O Twitter fala que está combatendo desinformação, principalmente em tempos de pandemia, mas ele não ajuda ao validar um perfil que trabalha prontamente para colocar em dúvida as vacinas.

Outro episódio recente que gerou críticas ao Twitter ocorreu em dezembro. No dia 10 do mês passado, a hashtag #SomosTodosNaoVacinados entrou nos assuntos mais comentados da plataforma. Embora tenha registrado também comentários críticos ao conteúdo, a campanha começou como espaço de mobilização contrária à vacinação contra a Covid-19. Na época, o Twitter disse que “atua em conteúdos enganosos relacionados à Covid-19 com base em suas regras. É importante dizer que essa política foi criada para fazer frente ao potencial de dano, no mundo offline, de informações enganosas ou questionáveis publicadas na plataforma. É sob essa ótica que os conteúdos são analisados para que sejam tomadas as medidas cabíveis”.

CASOS REINCIDENTES

Em 2020, o Twitter atualizou sua política para incluir alegações falsas sobre vacinas e outros temas relacionados à pandemia entre os conteúdos não permitidos ou que passariam a receber um selo com indicação de mensagem inverídica. Em março do ano passado, a rede anunciou que passaria a desativar a conta que desrespeitar cinco vezes as regras de desinformação sobre Covid-19. Publicações relacionadas à pandemia feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e pelos deputados federais Eduardo Bolsonaro (PSLSP), Carla Zambelli (PSL-SP) e Daniel Silveira (PSL-RJ) já foram sinalizadas como enganosas pelo Twitter.