Título: Dólar baixo, mercado interno em alta
Autor: Fernando Nakagawa
Fonte: Jornal do Brasil, 19/02/2006, Economia & Negócios, p. A19

Ainda em clima de ressaca com as novas medidas do governo que favorecem a entrada do capital estrangeiro e devem acelerar a entrada de dólares no Brasil, exportadores aumentam o volume das críticas e disparam contra o governo. A choradeira é antiga. Mas o cenário pode não ser tão nebuloso para os industriais. Na avaliação de economistas, ainda que o dólar ladeira abaixo possa ser devastador para os exportadores, pode haver aumento da renda e do acesso ao crédito, fenômenos que devem ser observados de forma mais clara ainda em 2006. Tudo isso junto pode alavancar o mercado interno.

Com a perspectiva de que mais dólares entrem no Brasil, as cotações da moeda americana devem continuar em queda. E já há analistas tentando prever quando o dólar chegará ao piso histórico de R$ 2.

- Já em maio a moeda deve chegar a este patamar - acredita o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Valle. - Definitivamente, o novo teto é R$ 2,20.

Com as cotações em queda, há influências positivas nos preços. Isso porque parte relevante do consumo do brasileiro está diretamente ligada aos preços internacionais.

Exemplos não faltam. Da gasolina, que segue os preços do petróleo, ao pão que tem trigo cotado em dólar, o consumidor deve sentir no bolso, ainda que gradativamente, a valorização do real no médio prazo. Tal fenômeno, acrescido dos indicadores atuais de preço que mostram variação menor que a esperada, abre espaço para que o Banco Central acelere o corte do juro.

- Com a manutenção desse ambiente, os fabricantes voltados ao mercado interno ganham. Dólar baixo se reflete em menor inflação que, lá na frente, acaba sendo vista em uma taxa de juros menor - diz o sócio-diretor da Tendências Consultoria, Roberto Padovani. - Inflação menor significa aumento do poder de consumo do brasileiro. Ou seja, pela renda ou pelo crédito, haverá aumento do consumo.

Na avaliação do economista, tais efeitos positivos devem começar a ser observados de forma mais clara ao final do primeiro semestre. Com a possível reação do mercado interno, o crescimento da economia brasileira poderá ser mais uniforme que o visto em outros anos, sustenta.

- Se em 2004 e 2005 crescemos basicamente com base nas exportações, esse ano devemos ter um crescimento mais homogêneo, com especial destaque na expansão dos bens de consumo duráveis, com consumo mais ligado à renda e crédito - afirma cita.

Com a possibilidade de reação mais forte do mercado interno, Padovani afirma que a Tendências pode rever, ainda no primeiro trimestre, as previsões para economia brasileira em 2006. Atualmente, a aposta da consultoria é de crescimento de 3,3% para o Produto Interno Bruto (PIB), juro básico (Selic) em 14% ao final de dezembro, câmbio médio de R$ 2,20 durante o ano.

- Mas é possível que a gente revise os números, com PIB para cima e juro e dólar mais para baixo - disse Padovani.