Título: Medo na contagem regressiva
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Fonte: Jornal do Brasil, 21/02/2006, Internacional, p. A6
O alarme disparado pelo avanço do número de casos de gripe das aves na Europa tornou-se mais sombrio, ontem, com o cálculo feito por um cientista da Grã-Bretanha. Embora a Organização Mundial de Saúde insista que ainda não há razão para temer a transmissão do vírus H5N1 para humanos, o virologista John Oxford calcula que o prazo para que isso ocorra seja de 18 meses.
- Estimamos que, nesse período, a cepa letal sofrerá seguidas mutações, originando uma forma que permitirá a transmissão. Não estamos falando de uma década, mas de meses - advertiu o pesquisador da Universidade de Queen's Mary, em Londres. Oxford, que é um dos poucos especialistas na doença no país, acredita que o governo tenha posto em prática medidas adequadas para prevenir uma epidemia da gripe.
- Pode-se prevenir, mas é quase impossível evitar que chegue aqui - completou.
O cálculo de Oxford não é gratuito, e a avaliação é parcialmente corroborada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ontem, em seu site na internet, a OMS informou que as mudanças observadas no H5N1 a partir da migração de pássaros na Europa não foram suficientes ainda para aproximá-lo dos humanos. Tais mutações seriam, por exemplo, a capacidade de ser transportado por aves migratórias por grandes distâncias e matá-las em grande número.
Vetores importantes, patos domesticados têm capacidade de resistir à doença, conseguindo hospedar o vírus por longas distâncias e expeli-lo em grandes quantidades. Isso possibilita a disseminação para novas regiões quando os pássaros migratórios começarem a voltar a seus territórios de reprodução, disse a OMC. As características principais do H5N1 continuam as mesmas de abril do ano passado, quando 6 mil aves foram encontradas mortas num lago no interior da China. Os vírus detectados nos focos da Nigéria, Iraque e Turquia eram virtualmente idênticos aos do Lago Qinghai.
Em tese, a mutação não é uma questão de ''se'', mas de ''quando''. Até agora, como atesta a OMS, não se registraram alterações significativas no vírus. Mas uma observação estatística em relação a outras patogenias ilustra o quanto já foi mudado. Segundo pesquisadores escoceses e americanos, 38 espécies perigosas de vírus e outros organismos identificadas nos últimos 25 anos já teriam sofrido mutações para afetar humanos.
Os mesmos cientistas afirmam que, se o H5N1 sofresse a mutação, seria apenas parte de uma alarmante tendência. E se juntaria a mais de 1.400 tipos de bactérias, vírus, protozoários, fungos, vermes e outros seres que ameaçam a saúde humana.
O professor Mark Woolhouse, da Universidade de Edinburgo, avalia que a crescente quantidade de infecções transmitidas de animais para humanos poderia ser atribuída a fatores como a expansão comercial e o número de viajantes. Outro fator incluiria a expansão das cidades rumo a ambientes naturais como florestas tropicais.
Woolhouse, que apresentou as conclusões num encontro da Sociedade Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), em Saint Louis, nos EUA, sustenta sua argumentação em um aspecto claro. A velocidade da mutação teria se tornado rápida demais para ser considerada apenas um reflexo evolutivo.
- Novos patógenos estão sendo detectados à uma taxa de um ou dois por ano. Seres humanos sempre foram atacados, mas isso está acontecendo em uma velocidade maior e precisamos agir - analisou, antes de acrescentar: - É preciso descobrir de onde estão vindo, por que estão surgindo e o que podemos fazer a respeito.
A pesquisa, publicada no jornal Trends in Ecology and Evolution , destaca os perigos de infecções chamadas ''zonóticas'', que são transmitidas de animais para humanos. O pesquisador afirma que uma vasta quantidade de espécies funciona como hospedeiro para organismos que poderiam afetar humanos.
A lista vai de vacas e galinhas a ratos, morcegos e a civeta, um roedor responsável pela disseminação do vírus da Sars. Outros exemplos de doenças '' zoonóticas'' incluem tuberculose, varíola e até a Aids.
Quase 60% das espécies conhecidas de patógenos humanos são zoonóticos. Mas a cientista Nina Marano, do Centro Nacional para Doenças Infecciosas de Atlanta, Geórgia, afirma que 75% das novas doenças se originaram de animais. Woolhouse afirma que veterinários e médicos precisam se ajudar mutuamente no sentido de identificar ameaças em potencial.
- Estudantes de veterinária precisam aprender as implicações para a saúde pública das moléstias que estudam - avaliou. - Tais doenças novas, em qualquer livro, são citadas só com os primeiros casos em humanos - completa. Para o pesquisador, a ajuda desses alunos poderia antecipar isso