Título: Guerrilha isola 1 milhão
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 21/02/2006, Internacional, p. A7
Uma campanha de intimidação do tráfego, imposta pela guerrilha colombiana para protestar contra a campanha de reeleição do presidente Álvaro Uribe, está causando falta de comida e gasolina em várias cidades do Sul do país. Aterrorizados, até motoristas de caminhão se recusam a seguir viagem.
Mais de 1 milhão de pessoas na Colômbia - cuja população é de 44 milhões - foram afetadas pelo protestos, que atingem as regiões de Putumayo, Caquetá, Meta e Guaviare, onde os rebeldes exercem considerável controle.
Os membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) mostraram que não vão tolerar ''desafios ao protesto'' e queimaram três caminhões e um ônibus escolar que furaram o bloqueio. No entanto, nenhum dos passageiros dos veículos ficou ferido.
- Temos mil caminhões parados nas estradas do Sul da Colômbia por causa da interrupção do tráfego - afirmou Pedro Aguilar, chefe da Associação de Caminhoneiros da Colômbia.
Aguilar instou o governo a retomar o controle da região, pois os poucos alimentos que conseguem ser entregues estão ruins. Além disso, a indústria de transporte de carga está perdendo US$ 177 mil por dia, e os profissionais reclamam de ter de passar os dias em redes, esperando as vias serem abertas.
Na quinta-feira, as Farc começaram a fazer circular um panfleto convocando à ''proibição'' do tráfego por cinco dias. Também foram feitos alertas anônimos em rádios de que qualquer veículo comercial ou pessoal em trânsito no Sul corria o risco de ser incendiado. Houve ainda ataques a algumas infra-estruturas elétricas.
Em entrevista à rádio Caracol ontem, o comandante do Exército colombiano, Reinaldo Castellanos, disse achar que as estradas são seguras para viagem. Mas se contradisse ao divulgar que, para tranqüilizar os motoristas, o Exército está organizado caravanas com pessoal fortemente armado para escoltar os caminhoneiros.
Ontem, era praticamente impossível comprar gasolina em Putumayo, que faz fronteira com o Equador.
- Mocoa (a capital do estado) está completamente sem combustível. Não há transporte, e poucos carros se arriscam a ir até as rodovias - contou o porta-voz do governo, William Vargas.
No departamento de Meta (Centro-Sul), os protestos tiveram tanto sucesso que a Força Aérea teve de entregar com aviões comida, gasolina e outros itens essenciais aos residentes.
Rebeldes das Farc vêm combatendo o governo há 41 anos, com uma expressiva intentona que almeja fomentar a revolução social. O conflito já matou milhares de pessoas.
As Farc recusam-se a negociar a paz com a gestão de Uribe, eleito em 2002 com a promessa de varrer os guerrilheiros do campo de batalha. O presidente é franco favorito nas eleições de maio, na qual provavelmente se elegerá para um segundo mandato.
Para lidar com o desafio imposto pela guerrilha, Uribe comandou ontem uma reunião do conselho de segurança no aeroporto militar. Inicialmente, o encontro estava marcado para Caquetá, mas foi alterado ''devido ao mau tempo na cidade, que dificultou o traslado''. As medidas que estão para ser adotadas não foram reveladas.