Título: PMDB vai à Justiça para ficar com Lula
Autor: Rodrigo Camarão
Fonte: Jornal do Brasil, 26/02/2006, País, p. A2

A recuperação relâmpago da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu fôlego à ala governista do PMDB, que aposta numa aliança com o petista já no primeiro turno, em outubro. Nova estratégia foi desenhada dia 15 na Granja do Torto, onde o anfitrião Lula recebeu os caciques peemedebistas Renan Calheiros (AL), presidente do Congresso; José Sarney (AP), ex-presidente da República; e Jader Barbalho (BA), ex-presidente do Senado. O grupo governista, capitaneado pelo trio, tentará bombardear as prévias do partido pelo flanco que consideram mais frágil, a legitimidade, com a arma que acreditam mais poderosa, a Justiça. Eles vão questionar os critérios de contagem dos votos nas prévias, marcadas para 19 de março. Ficou estabelecido que o peso dos votos seria diferente de acordo com a força política do partido em cada estado. A manobra foi proposta por Jader Barbalho. Agora servirá de álibi para o grupo governista, do qual faz parte, recorrer à Justiça pedindo o cancelamento da prévia.

Dirão que a regra favoreceu redutos dos pré-candidatos Anthony Garotinho, do Rio, e Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, e pode ter inviabilizado a pré-candidatura de outros nomes como os governadores Jarbas Vasconcellos (PE) e Roberto Requião (PR).

Os movimentos para pôr em prática a estratégia já começaram. Renan Calheiros fez declarações segundo as quais o partido precisaria de mais nomes nas prévias, apesar de se declarar favorável à candidatura própria. No dia da divulgação da pesquisa Datafolha, em que Lula aparece como vitorioso tanto no primeiro quanto no segundo turno, o ministro das Comunicações, o peemedebista mineiro Hélio Costa, fez apelo para que o PMDB desistisse da candidatura e formalizasse apoio à reeleição do presidente. O presidente nacional do PMDB, Michel Temer, que se diz entusiasta da candidatura própria, admitiu que já ouviu falar no possível recurso na Justiça.

- Na convenção de 12 de dezembro de 2004 eles ganharam liminar para suspender a convenção. É possível que haja um movimento judicial, mas não vejo como derrubar as prévias. Outra possibilidade governista é instruir caciques regionais a não realizarem prévias nos estados que controlam. Ainda que não consigam suspender a votação, tentariam diminuir o quorum, o que poderia ajudar na tese da falta de legitimidade.

De acordo com o estatuto do partido, 10% já garantem uma prévia legal, mas não necessariamente legítima. Integrantes dos dois grupos acreditam que a estratégia de simplesmente boicotar a votação pode ser perigosa e ter um efeito contrário, passando para a sociedade uma idéia antidemocrática2. Vitoriosa ou não, a tese governista não será capaz de unir o partido. Caciques do PMDB admitem que, independentemente da direção oficial, a legenda sairá dividida.