Título: Taiwan desafia China
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Fonte: Jornal do Brasil, 01/03/2006, Internacional, p. A12
A China acusou ontem o presidente de Taiwan, Chen Shui-bian, de colocar ''em sério risco'' a paz e a estabilidade no estreito de Taiwan e na região Ásia-Pacífico. Chen acabou com o Conselho de Unificação Nacional com a China, o que equivale a suspender as últimas amarras legais com o governo de Pequim.
- O Conselho para a Unificação Nacional deixará de funcionar - afirmou o presidente Chen, referindo-se ao órgão criado em 1990, quando a ilha estava sob o governo do unionista Partido Kuomintang.
O líder do Partido Democrata Progressista, pró-independência, justificou a decisão com a ameaça militar da China ''e suas tentativas de empregar meios não pacíficos para modificar de forma unilateral a situação no estreito de Taiwan''. Além disso, invalidou as Diretrizes de Unificação, promulgadas em 1991 e que detalhavam como deveria transcorrer uma hipotética união com o país vizinho.
- A-bian fez alguma coisa errada ? - perguntou Chen em um comício, referindo-se a si mesmo com o seu apelido. - Estou errado de devolver ao povo o direito de decidir sobre seu futuro? - emendou, ouvindo ''não'' como resposta.
O governante de Hong Kong reafirmou o direito da ilha à democracia e a necessidade de manter a ''liberdade, os direitos humanos e a paz no estreito de Formosa''. Taiwan, com 23 milhões de pessoas, é ameaçada pelo militarismo chinês, que posicionou mais de 700 mísseis para o caso de um levante rebelde. Além disso, Pequim aprovou uma lei Anti-Secessão, que dá base legal a um ataque militar contra o vizinho, no caso de a ilha avançar rumo à independência.
Para o presidente chinês, Hu Jintao, Taiwan está dando ''um passo perigoso'' declarando ''formalmente'' sua independência ao abolir o órgão para a reunificação com o país. A medida, segundo o Partido Comunista, pode trazer ''um desastre'' para a ilha. A China considera a região uma província rebelde no Sudeste asiático desde sua separação, em 1949, quando terminou a guerra civil chinesa.
O movimento de Chen foi considerado uma ''grave provocação ao princípio chinês de paz no estreito, apoiado pela comunidade internacional'', segundo o presidente Hu, para quem seu país busca uma ''reunificação pacífica'', mas que ''nunca permitirá que a ilha se separe de sua pátria''.
O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores de Pequim Liu Jiachao já alertou Washington, aliado de Taiwan, para não enviar ''sinais errados'' para o auto-governo da ilha:
- Pedimos aos Estados Unidos que compreendam o perigo e a gravidade das atividades independencistas de Chen Shui-bian.
O Departamento de Estado americano, por sua vez, informou na segunda-feira que vai acreditar nas palavras de Chen de que o movimento não significa uma mudança na postura do país.
- Entendemos que o presidente Chen reafirmou o compromisso de Taiwan com seu status quo - afirmou o porta-voz Adam Ereli said. - Consideramos esse compromisso muito importante e vamos acompanhar o processo cuidadosamente.
Jornais taiwaneses afirmaram que a decisão do governo pode ser a primeira de muitas que visam fortalecer Chen enquanto líder do movimento pró-independência. Uma pesquisa de opinião publicada ontem revelou que 51% das pessoas entrevistadas são contra a suspensão do conselho de unificação, enquanto a aprovação do presidente continua baixa, em torno de 24%. Consultas como esta costumam apontar que mais de 80% da população preferem manter a ilha em seu atual status quo.
Na metade do segundo mandato, Chen parece ter desistido da reconciliação com a China, já que foi eleito com a promessa de não romper com Pequim. O governo chinês recusa-se a dialogar diretamente com o governante.
O principal partido de oposição da ilha, o Kuomintang, favorável ao fortalecimento das relações com a China, ameaçou o governo com um processo de impeachment.