Título: Zona de guerra
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 06/03/2006, Opinião, p. A12
O roubo de armas num quartel em São Cristóvão e a ocupação de soldados do Exército nos morros do Complexo do Alemão revelam a face extrema do enredo de violência protagonizado pelo Rio de Janeiro. A afronta de bandidos narcotraficantes ultrapassa os limites do absurdo. As intenções são habituais: subtrair armas do Exército e conduzi-las às mãos de criminosos. No passado, esse tipo de gesto costumava encerrar as ações mais audaciosas e sublinhar o ataque definitivo às instituições responsáveis pela segurança. Foi com a invasão de um quartel, o de Moncada, em julho de 1953, que Fidel Castro mostrou ao mundo o poderio dos revolucionários cubanos, apesar da ação frustrada.
No Rio deste início de século 21, a revolução é outra: trata-se do domínio da barbárie sobre o mundo civilizado. A insistência com que se invadem os quartéis cariocas se tem tornado perturbadora. Em 2004, o Exército sofreu pelo menos quatro ataques - dois deles separados por uma distância de sete dias.
Na ação da madrugada de sexta-feira, conforme o relato dos repórteres Ricardo Albuquerque e Waleska Borges, na edição de sábado do JB, sete bandidos invadiram o quartel com roupas camufladas e toucas-ninjas. Em seguida, renderam dez militares do Corpo da Guarda que descansavam à espera de seus plantões e levaram dez fuzis e uma pistola. A reação do Exército foi justificada: cerca de 600 soldados, reforçados pela Polícia Militar, ocuparam o Complexo do Alemão e ampliaram a zona de guerra no Rio.
O objetivo dos militares é recuperar os fuzis e prender um ex-cabo possivelmente envolvido na ação em São Cristóvão. O Inquérito Policial Militar, aberto para investigar o roubo, não tardará a descobrir a presença de bandidos fardados na quadrilha que invadiu o quartel. Só mesmo alguém que conhecia a unidade militar permitiria tanta liberdade para o roubo das armas.
Eis outro sinal destes tempos perversos que atormentam a cidade, afrontam as instituições e tornam pavorosa a rotina dos cariocas de bem.