Título: O partido dos banqueiros
Autor: Milton Temer
Fonte: Jornal do Brasil, 21/03/2006, Outras Opiniões, p. A11

Se alguém mais bem intencionado ainda pretendia refutar, fecharam-se os atalhos de justificação. A reação dos grandes banqueiros às denúncias incontestáveis de envolvimento do ministro Palocci com a gangue de Ribeiro Preto - que fez lobby pesado para bingos, lotos e bicheiros, por linha paralela à do achacador Waldomiro Diniz - é a prova definitiva do caráter subalterno do governo Lula em relação a esse predatório segmento da economia. Como abre-alas do oba-oba salvífico, destaque para o ''ministro'' presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Ele é, formalmente, subalterno do ministro da Fazenda. Mas, na real, é o grande condestável da política econômica do governo Lula; chefe do chefe, na medida em que garante a independência do BC em relação ao governo, simultânea à absoluta subalternidade aos interesses da banca internacional e de seus cúmplices no Brasil.

Eis como ele se expressou em evento em São Paulo, ao tempo em que as manchetes informavam que a dívida pública - grande geradora dos lucros dessa banca - alcançava a insignificante cifra de R$ 1.000.000.000.000,00: ''Eu gostaria de enfatizar o papel fundamental na economia exercido hoje pelo ministro Antonio Palocci. Ele tem uma combinação rara de qualidades, tem raciocínio científico devido à sua formação médica, capacidade de absorção de situações complexas, uma habilidade política muito pronunciada, serenidade e persistência''.

Mas isso é pouco, diante das explicações do presidente da poderosa Febraban e do Bradesco, o recordista em lucros de 2005, Mario Cypriano, para considerar incogitável a saída de Palocci, a despeito de qualquer comprometimento mais grave com a máfia dos bingos: ''A economia está totalmente desvinculada do aspecto político''.

Só se compreende tão sintomática supressão de direito se não for levado em conta que uma alternativa de esquerda, no próximo pleito presidencial, vai ter como prioridade o restabelecimento da relação direta entre política e economia, com sérios problemas para os especuladores dos títulos do governo. Para os que consideram que, aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei.

Escusado reproduzir os depoimentos divulgados dos demais banqueiros. Foram todos na mesma linha de proteção traçada pelo representante maior.

O que vale a pena é percorrer o desdobramento da crise nas internas do PT. Serve para concluir a que ponto pode chegar a degeneração de uma legenda com tantos momentos exemplares de luta contra o grande capital, quando a ele se entrega totalmente. E registre-se o ''totalmente'', com pesar.

Foi de doer na alma ver Raul Pont, líder histórico dos segmentos mais combativos do partido, expondo-se em declarações canhestras nos noticiários de TV, para poupar os ocultos patriarcas da direita partidária de explicar por que se cancelava a discussão interna sobre a necessidade de mudança na política econômica. Mudança, por sinal, reivindicada por Pont como condição de apoio a um segundo governo Lula. Mais arguto, Valter Pomar, outro líder de tendência, desta vez não tentou sacar ases de uma manga que mal pode carregar um dois de paus. Não se apresentou para as entrevistas. Com isso, comprovam ambos que o principal papel da suposta ''esquerda petista'', hoje, não passa de garantir aval às trampolinagens dos que entregaram a legenda ao controle total do Planalto, a despeito do que o Planalto diga e faça. A despeito do que passou a representar como instrumento essencial para o sucesso das operações do grande capital.

Indo aos finalmente, decisivo é refletir sobre o que vem pela frente, na campanha não lançada, mas já em curso, a partir dos imensos recursos publicitários e de deslocamentos que o presidente Luiz Inácio vem pondo em prática por todo o país. A escolha do candidato do PSDB apenas confirmou os desejos da elite de direita que, conforme sinais consolidados por declarações do próprio Berzoini, presidente do PT, tinha mais medo de Serra do que Lula. Festeja a consolidação da falsa dicotomia entre mais do mesmo e uma mais eficaz gestão de mais do mesmo.

Resta saber se as esquerdas que não se atolaram na resignação vão saber se unificar em torno de sua expressão mais óbvia - a senadora Heloisa Helena que, a despeito do muro de silêncio imposto a ela pela grande mídia, já parece ter consolidado de 6 a 8% dos eleitores no apoio a seu nome - para construir um caminho alternativo. Se o fizerem, uma verdadeira terceira via pode estar sendo gerada.