Título: Uribe, presidente sem maioria
Autor: Diana Delgado
Fonte: Jornal do Brasil, 12/03/2006, Internacional, p. A25

Perto de conseguir se manter no poder em um segundo mandato de quatro anos, o presidente Alvaro Uribe provavelmente não terá aliados que assegurem a continuidade de sua maioria depois das eleições parlamentares de hoje. A vitória do mandatário é largamente esperada, mas o quadro no Congresso reduzirá a vantagem e pode ameaçar a aprovação de reformas que demandam apoio de parlamentares de oposição e de alguns independentes.

O colombiano Uribe tem perfil político diferente: não pertence a partido, preferindo permanecer como um candidato independente capaz de coordenar o grupo de aliados que formou no Parlamento. A maior parte desse contingente está agrupado em sete legendas. Juntas, aparecem niveladas em primeiro lugar na votação de hoje, mas pesquisas recentes indicaram que nenhuma obterá índice suficiente para garantir a maioria em qualquer das casas do Congresso. O estudo foi feito pelo instituto de pesquisas Datexco para o jornal El Tiempo, de Bogotá.

Aliados, como Alfredo Rangel, que disputa uma cadeira no Senado em um dos partidos pró-Uribe, estão confiantes de que o líder conseguirá reunir um grupo com alguns independentes e dissidentes do opositor Partido Liberal - o maior na casa - para fazer passar as reformas que planeja.

Analistas políticos e econômicos que enxergam uma crescente pressão pela aprovação das medidas acreditam que isso possa acontecer. É uma torcida grande, especialmente depois que Uribe falhou em conseguir mexer com as reformas da Previdência Social, fiscal e administrativa neste primeiro mandato.

- Para garantir o crescimento econômico sustentável, o país precisa de uma modernização nos impostos - avalia Rodrigo Jaramillo, presidente da maior corretora colombiana, a Interbolsa. - Existe um risco de o Congresso se tornar um obstáculo ao crescimento econômico - acrescenta.

As próximas prioridades governamentais no Legislativo incluem, ainda, a atualização do código fiscal colombiano e a ratificação do Acordo de Livre Comércio recentemente assinado com os EUA.

Uribe está apostando no crescimento da economia para garantir a vitória dos aliados que disputam cadeiras no Congresso. A mesma tática vale para a campanha presidencial, que culminará no pleito de 28 de maio.

Com a taxa de pobreza caindo 50% e a economia se expandindo 5% em 2005, o presidente confia no voto dos eleitores cuja situação financeira melhorou. O objetivo primordial é vencer com folga, de forma a evitar um segundo turno. As notícias positivas nesse campo, no entanto, não parecem ser suficientes para garantir que seus aliados obtenham a maioria.

Pelos cálculos da Datexco, os sete partidos fechados com Uribe deverão obter apenas 48% dos 102 assentos no Senado. Os principais partidos de oposição, incluindo o Liberal, devem conseguir cerca de 40% também no Senado, enquanto que os grupos independentes alcançarão por volta de 11% das vagas. A empresa entrevistou 1.200 colombianos em 43 cidades do país. A margem de erro da pesquisa é de 2.9 pontos percentuais, para menos ou para mais.

A previsão detalhada para os resultados da disputa pelas 166 cadeiras da Câmara dos Deputados é mais difícil, já que são 32 distritos eleitorais no país. As unidades, de tamanhos diferentes, devem eleger dois ou mais representantes por distrito. De acordo com o consultor político Patrick Esteruelas, a habilidade do presidente em controlar o Congresso vai depender essencialmente dos resultados que o Partido Liberal obterá no pleito.

- Se Uribe será capaz ou não de formar uma coalizão efetiva é algo que está nas mãos dos liberais e de um eventual compromisso em cooperar com ele - acrescenta Esteruelas, para quem o partido deve chegar a 30 cadeiras no Senado. Caso o número seja inferior a esse, o analista prevê que mais dissidentes acabem se unindo ao grupo de Uribe.

Há indícios de que isso pode acontecer. Alguns liberais já declararam que pretendem votar pela ratificação do acordo de livre comércio negociado com os EUA. Entre eles está Cecilia Lopez, a principal candidata da legenda ao Senado. A mesma facilidade, no entanto, não deverá se refletir na discussão sobre outras reformas, principalmente quanto ao aumento de taxas. O governo justifica a proposta pela necessidade de compensar a queda de arrecadação decorrente da redução de impostos corporativos.

- O Partido Liberal acredita que uma reforma fiscal estrutural é necessária - avalia Lopez. - Entretanto, não podemos aceitar uma medida que ameace os setores mais pobres do país. Já o analista Alberto Ramos, de Nova York, crê que os sete grupos pró-Uribe provavelmente não darão apoio incondicional às reformas.

- Isso significa que a possibilidade de se formar um bloco parlamentar majoritário favorável às reformas durante o segundo mandato não será maior que a observada no primeiro - raciocinou.

Mais do que isso, a possível coalizão de aliados de Uribe poderia se enfraquecer com o tempo. Isso forçaria, na visão dos analistas, o presidente a acelerar as negociação das reformas necessárias à Colômbia antes que sua sustentação acabasse abalada.