Título: As imagens atraentes que os marqueteiros vão preparar
Autor: Israel Tabak
Fonte: Jornal do Brasil, 15/03/2006, País, p. A4
Decidida a escolha de Geraldo Alckmin, os estrategistas que trabalham para tucanos e petistas já dispõem dos elementos necessários para armar as peças de ataque e defesa na guerra eleitoral. A figura comportada e de semblante conservador de Alckmin pode, por exemplo, sugerir aos petistas uma hipotética disputa entre o Lula ''protetor dos pobres'', e o candidato dos ''ricos''. Assim como Alckmin - como deixou claro no discurso de ontem - deve se apresentar como o intrépido defensor da honestidade e da moralidade contra a ''maré de corrupção'' do governo Lula.
São possíveis cenários que lembram contendas antigas como a de Getúlio Vargas, ''o bom velhinho'', contra o brigadeiro Eduardo Gomes, que ficou na percepção popular como o homem que não gostava dos marmiteiros e perdeu a eleição.
Alckmin terá de enfrentar duas situações delicadas e priorizadas no ABC do marketing eleitoral: são questões ligadas à notoriedade e ao carisma, como acentua Cid Pacheco, professor de comunicação política e eleitoral da UFRJ e um dos mais antigos consultores políticos brasileiros. O governador de São Paulo ainda é desconhecido de grande parte do eleitorado fora do estado e é pouco carismático, a ponto de ter sido apelidado de picolé de chuchu pelo adversário Paulo Maluf.
- Enquanto isso o Lula é autor da façanha de conseguir não só se desvencilhar do mensalão como do próprio governo. Passou para uma parcela significativa do eleitorado a imagem de que não tem nada a ver também com o que acontece de errado na sua própria administração - analisa Pacheco.
Associar Alckmin com tudo o que de pior ocorreu no governo Fernando Henrique será uma das principais estratégias do PT, como afirmou ontem o líder do partido na Câmara, Henrique Fontana. É, no entanto, uma tática arriscada, já que os governos Lula e Fernando Henrique se acusam dos mesmos pecados: práticas políticas condenáveis e a escolha de um projeto econômico ortodoxo e recessivo.
Cid Pacheco enxerga uma chance para Alckmin naquilo que os marqueteiros chamam de ''atração dos indiferentes'', a parcela do eleitorado que se mantém alheia e desinteressada mesmo nos momentos finais da campanha.
Caso os estrategistas consigam passar para esse segmento a imgem de Alckmin como um político competente, honesto, com um passado recomendável - e que não pode ser culpado pelos erros cometidos nos governos de FH - existe a possibilidade de uma sintonia com o anseio de ética na política, ainda não totalmente adormecido mesmo entre os que se apresentam como descrentes.
Nesse ponto, Geraldo Alckmin leva vantagem sobre José Serra, até mesmo por nunca ter tido qualquer participação administrativa nos dois mandatos de Fernando Henrique.
O especialista chama a atenção, no entanto, para o perfil do eleitorado, com 75% composto por pessoas de muito baixa escolaridade e 62% ganhando abaixo de três salários mínimos.
É um contingente bem mais sensível a políticas assistencialistas e mais distante de refinadas discussões ideológicas, embora atento aos escândalos reverberados pelos meios de comunicação.