Título: Quando a história se repete como farsa
Autor: Augusto Nunes
Fonte: Jornal do Brasil, 02/04/2006, País, p. A2
Na noite de 30 de abril de 1981, um Puma cinza-metálico estacionou perto do Riocentro, palco do show organizado para comemorar o Dia do Trabalho. Na direção estava o capitão do Exército Wilson Luiz Alves Machado. No banco ao lado acomodava-se o sargento Guilherme Pereira do Rosário. Ambos haviam sido escalados para explodir com uma bomba a casa de máquinas. O atentado fora concebido por militares ultradireitistas, nostálgicos da guerra suja dos anos 70. Algo deu errado: a bomba que deveria semear a morte e o pânico entre milhares de espectadores explodiu no colo do sargento Rosário e o matou. O capitão, gravemente ferido, sobreviveu. Os desastrados ocupantes do Puma falharam na execução do plano terrorista. Tudo muito simples, tudo muito claro.
Neste 27 de março, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, foi afastado do cargo que ocupava havia três anos. Nos dez dias anteriores, dissolvera-se a farsa destinada a camuflar a violação de um direito constitucional do caseiro Francenildo Costa. Contratado para vigiar a mansão alugada pela República de Ribeirão, clube de lobistas amigos do ministro, ele vira várias vezes Palocci chegar de carro ao endereço que jurara desconhecer. Revelou o que sabia. Esqueceu-se de que, no Brasil, convém saber de quem se está falando.
Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal, determinou o estupro do sigilo bancário do caseiro. Entregou o extrato ao ministro, feliz com a descoberta: desde janeiro, haviam sido depositados cerca de R$ 25 mil. Decepcionou-se com a identificação do depositante: o pai biológico de Francenildo. Palocci cometera um pecado mortal.
Tudo muito simples, tudo muito claro, certo? Sim, para quem preza a verdade. Não para o governo: em 1981 como agora, a farsa montada por companheiros espertos foi encampada pelo presidente da República. Os terroristas de 1981 ganharam o manto protetor do poder, estendido pelo presidente João Figueiredo. Os criminosos deste março foram inocentados liminarmente pelo presidente Lula. Três anos depois da explosão no Riocentro, o poeta Affonso Romano de Sant¿Anna publicou no Jornal do Brasil o poema A Implosão da Mentira.
Coincidentemente, o título escolhido pelo poeta seria repetido, 22 anos mais tarde, na manchete da edição do JB que noticiou a queda de Palocci. A palavra sempre ressuscita a verdade.