Título: Demonstração de força
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 07/12/2004, Internacional, p. A8

Com 12 bombas em quatro dias o grupo separatista basco ETA anunciou que, apesar dos duros golpes sofridos nos últimos anos, com o desbaratamento de várias células e a prisão dos principais membros de sua cúpula, continua tendo capacidade de agir.

- A ETA está colocando em prática, num momento significativo, uma nova estratégia, segundo a qual tenta fazer-se presente com pouca infra-estrutura - opina o coordenador geral da aliança Esquerda Unida, Gaspar Llamazares.

Para analistas, a decisão de avisar sobre os ataques não só reflete o desejo de evitar perdas humanas - o que teria indignado a opinião pública -, mas também a debilidade de um grupo que não comete ataques letais desde maio de 2003, quando um carro-bomba matou dois policiais.

Desde 1968, a ETA, que luta pela independência do País Basco, uma das 17 comunidades autônomas espanholas, assassinou mais de 800 pessoas.

Outros consideram que o objetivo dos ataques é mostrar à sociedade que se não cometem mais atentados é porque não querem, não que sejam incapazes de fazê-lo.

As bombas dos últimos dias também serviram para acabar com as especulações sobre uma possível trégua, proposta por seis membros da ETA presos, num momento em que se prevê a iminente extinção do grupo. Analistas crêem que a proposta revela a grande divisão que há hoje entre os membros mais novos e jovens, que querem manter a luta, e os mais velhos, inclinados a negociar o fim do conflito ou desistir.

Do respeito internacional conquistado durante a ditadura de Francisco Franco (1939 - 1975), que reprimiu a língua e a cultura basca, o grupo separatista passou a ter a imagem marginalizada de um bando de poucas dezenas de pistoleiros.

Atualmente, o País Basco é o que goza de maior autonomia entre as comunidades espanholas e uma pesquisa recente aponta que só 25% dos bascos querem a independência da região, enquanto 32% se opõem a ela.

No cenário político, a proibição legal do partido do grupo, o Batasuna, deixou a ETA praticamente marginalizado politicamente e analistas acreditam que a nova onda de atentados pode ter sido o golpe final para os planos do partido radical de voltar à arena.

Por enquanto, o governo rechaça a proposta de diálogo pela paz sugerida pelo Batasuna, até que o partido comece a condenar a violência da ETA.

O grupo reduziu sensivelmente as ações depois dos atentados de 11 de março contra trens em Madri, que deixaram 191 mortos. A ETA foi imediatamente culpada pelo governo do ex-premier espanhol José María Aznar, mas dados divulgados depois permitiram concluir que tratou-se de uma operação empreendida por militantes islâmicos.