Título: Mártires somem do discurso
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Fonte: Jornal do Brasil, 11/01/2005, Internacional, p. A7
A mudança é sutil, mas significativa: os mártires sumiram. Arafat dizia: ''Um milhão de mártires marcham para Jerusalém'', espécie de convocação para a luta armada. Após a vitória, os partidários de Mahmoud Abbas cantavam: ''Um milhão de pessoas vão para a liberdade em Jerusalém.'' A diferença é um ajuste de estilo. As convicções do novo líder não mudam, só o trato delas.
Apesar da falta de concorrentes de peso, analistas viram o pleito como um dos mais corretos do mundo árabe e ressaltaram que o segundo colocado, Mustafa Barghouthi, teve liberdade para criticar Abbas.
- A ditadura se foi, mas o regime ainda existe, com os mesmos personagens. Mas há uma luz no fim do túnel - alerta Bassem Eid, da ONG Palestinian Group of Human Rights Monitoring.
Na campanha, Abbas usou termos fortes, descrevendo Israel como o ''inimigo sionista'', algo que nem Arafat fez. Agora pareceu incomodado, quando, na festa, alguém ofendeu o primeiro-ministro Ariel Sharon.
Apesar disso, agrada a Israel é o fato de Abbas ter se comprometido a encerrar o levante e declarado que a luta armada acabara, mantendo o sonho do Estado na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém, além da volta dos refugiados. Sharon já disse que quer se reunir logo com o novo presidente, mas os assessores da ANP não pretendem dar esse passo sem um sinal de Israel. E Abbas, antes, tem de arrumar a casa
- Ele sempre foi alguém que pregava a criação de instituições. Pode mudar a agenda interna, mas talvez não o suficiente - diz Islah Jad, da universidade Bir Zeit. - O primeiro teste será no gabinete, afastando auxiliares de Arafat ligados à corrupção - completa Nader Said, da mesma instituição.