Título: Palestino cobra vida melhor a Abbas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 11/01/2005, Internacional, p. A7
Mal a comissão eleitoral confirmou a vitória do ex-primeiro ministro Mahmoud Abbas nas eleições presidenciais da Autoridade Palestina, com 62,3% dos votos, as ruas dos territórios ocupados voltaram a se encher de partidários do líder da Fatah, que celebraram o triunfo com carreatas e tiros para o alto. Mas pouco a pouco, as primeiras cobranças começaram a surgir, dando idéia do tamanho da expectativa com o novo governo da Muqata.
Ainda de acordo com a comissão eleitoral, o candidato independente Mustafa Barghouti ficou em segundo com 19,8% dos votos. Atrás de Barghouthi vieram o candidato da Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), Taisir Jalid, com 3,5% dos votos, e o do Partido do Povo, Basam Salhi, com 2,69%. Cerca de 1,8 milhão de palestinos podiam votar.
Como a maioria dos palestinos, Taiseer Hamdallah votou em Abbas pela lealdade ao sonho nacionalista de Yasser Arafat. Mas ele espera que o novo presidente não se deixe aprisionar pelo sonho como ocorreu com Arafat.
- Não quero vê-lo virando outro ícone. Votamos nele porque contamos que ele possa nos trazer uma vida menos sofrida - diz Hamdallah, em Ramala, sonhando com melhorias econômicas e sociais para toda a população.
A mesma concepção é demonstrada por outros, afirmando que a vitória incontestável de nada valerá se Abbas não governar direito, desligando-se do papel de patriarca da guerrilha e combatente contra a ocupação que foi a marca de Arafat.
O desafio dos militantes ao seu pedido de trégua e os crescimento dos assentamento israelenses na Cisjordânia, não restringido pelos Estados Unidos, geram dúvidas se a agenda da não-violência conseguirá fazer com que o sonho de um Estado se torne real. Ainda assim, os otimistas com a possibilidade de que Abbas dê passos práticos para chegar ao sonho são, hoje, a maioria.
- Dancei até o dia clarear por Abu Mazen (o nome de guerra de Abbas), mas agora quero ver ações - cobra o motorista de táxi Amjad Helmi, de 27 anos. - Com essa vitória vem uma grande responsabilidade. Esperamos um futuro melhor, sem bloqueios militares de Israel e com oportunidades de emprego - emenda.
Outra questão premente para o eleitorado envolve o contingente de 7 mil prisioneiros palestinos que Israel mantém encarcerados sob acusação, na maioria dos casos, de terrorismo. Para muitos nos territórios, é a hora de devolvê-los à liberdade e só Abbas, por sua capacidade de negociar, traz essa esperança.
- Votei nele porque prometeu libertar nossos filhos - diz Mahmoud Maqlad, de 65 nos, em Gaza, referindo-se a um dos seus, que cumpre prisão perpétua em Israel.
Nesse campo, a família Mugrabi, que vive em Dheiseh, Belém, é um retrato dos tempos e da divisão da sociedade palestina. Mohammed, o único dos cinco filhos de Yusuf que não está morto ou preso em Israel, votou. Seu pai não quis. Yusuf Mugrabi, de 54 anos, é da Fatah, a facção que elegeu Abbas, mas não crê que ele fará diferença alguma.
Já Mohammed, um vendedor de frutas que escolheu não seguir a trilha violenta dos irmãos, preferiu acordar cedo e aproveitar que os portões da cerca foram abertos mais tempo pelo Exército para ir à escola local, onde foi instalada uma seção eleitoral.
- Escolhi Abu Mazen porque ele talvez consiga trazer os prisioneiros de volta - diz.