Título: O vale-tudo em busca de votos
Autor: Sérgio Pardellas e Daniel Pereira
Fonte: Jornal do Brasil, 12/01/2005, País, p. A3

Com a questão política prestes a ser superada, as discussões a respeito da eleição para a Mesa Diretora da Câmara ganharam novo rumo nos últimos dias. Em franca campanha pela presidência, o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) deixou de lado a alegada timidez, calçou as sandálias da humildade e aposentou antigas bandeiras pessoais, para, enfim, vencer as resistências a seu nome entre os parlamentares. - Minha vida como advogado não vai influenciar na minha conduta como presidente. Serei o presidente de todos - tem dito o deputado, segundo relato de parlamentares abordados nos últimos dias no corpo-a-corpo da campanha.

Anteontem, o ex-advogado do MST e ferrenho defensor das causas humanas, tomou uma atitude que há bem pouco seria considerada nos bastidores da Casa pelo menos estranha. Telefonou para o deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS), um dos principais interlocutores da chamada bancada ruralista - hoje um dos setores mais refratários a sua eleição no Congresso - se dizendo aberto ao diálogo. Greenhalgh também sinalizou que, sob sua gestão, a Câmara votará a Lei da Biossegurança sem realizar alterações no texto remetido pelo Senado. Ou seja, respeitará o acordo celebrado com ruralistas, no final do ano passado, que permitiu a aprovação da Parceria- Público-Privada, projeto considerado prioritário pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Defendido pelo Palácio do Planalto, o projeto de Biossegurança aprovado pelos senadores atende ao agronegócio e impõe derrotas à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Entre elas, a possibilidade de a CTNBio deliberar sobre a pesquisa e a comercialização de transgênicos sem a obrigação de consultar antes o Ibama e a Anvisa.

A esperança de Marina é reverter a situação durante a derradeira votação na Câmara. A tarefa não é das mais fáceis, apesar do apoio individual de deputados petistas. Com a benção do Planalto, os ruralistas destituíram do cargo de relator o deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE), substituindo-o por outro de seus interlocutores, Darcísio Perondi (PMDB-RS).

- Ele (Greenhalgh) disse pra mim que embora defenda outras teses como parlamentar, terá outro comportamento como presidente da Casa. Deixou claro que estará aberto também às reivindicações da bancada ruralista - disse o deputado Heinze.

Durante a conversa, o parlamentar gaúcho foi convidado para uma conversa tête-à-tête com o candidato petista em Brasília. Mas, desfrutando o feriado parlamentar no Rio Grande do Sul, declinou da proposta e apresentou como justificativa a necessidade de azeitar uma posição com os colegas de bancada.

- É claro que ele quer pedir voto. Mas achei prematuro. Vamos conversar mais com os deputados - ponderou, dizendo em seguida que também foi procurado pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.

- Ele (o ministro da Agricultura) também quer conversar conosco. Vamos com calma.

A disposição de Greenhalgh em respeitar os acordos firmados no Senado também deverá lhe render votos na oposição. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) cobra a conclusão da votação da reforma tributária sobretudo no que diz respeito à unificação do ICMS, para que o novo Imposto de Valor Agregado (IVA) possa vigorar a partir de 2007. Tasso Jereissati classifica a primeira etapa da reforma tributária como ''ajuste emergencial''. Ou seja, a prorrogação da CPMF e da DRU a partir de janeiro de 2004, além da partilha da Cide com estados e municípios e a criação do Fundo de Compensação à Desoneração das Exportações.

Ontem, Greenhalgh, reunido com parlamentares petistas, definiu o calendário de viagens para esta semana. Quinta e sexta-feira ele viajará para Aracaju, Teresina e Fortaleza. Às segundas-feiras será realizado uma avaliação da coordenação de campanha. Os deputados Chico Alencar (PT-RJ), José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Luiz Piauhylino (PDT) ficaram responsáveis pelo programa de governo.