Título: Médico 'empreendedor'
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 13/01/2005, País, p. A3

A administração do hospital municipal de Santana (BA) foi entregue à empresa do prefeito empossado da cidade, o médico Wilson Neves de Almeida, no primeiro dia do mandato, em 1998. A empresa do médico-prefeito é a Almeida Lopes Serviços Médicos S/C Ltda, considerada irregular pela Controladoria-Geral da União (CGU).

Desde a eleição, o médico se afastou da empresa por dois períodos, mas sempre retornou ao negócio. Nesses mais de sete anos, a Prefeitura de Santana transferiu R$ 3,2 milhões para a firma do prefeito. A empresa, segundo a CGU, se negou a devolver o prédio do hospital ao município. Em 2003, a empresa embolsou R$ 591 mil do município e no ano passado, até julho, R$ 273 mil.

Segundo a CGU, Wilson é médico do Ministério da Saúde, lotado no hospital de Bom Jesus da Lapa (BA). O problema é que a CGU constatou que o médico também foi lotado no hospital de Santana. Segundo levantamento da CGU, ele trabalhou ainda nos hospitais de Tabocas do Brejo Velho e em Santa Maria da Vitória. E ainda para uma estatal.

O relatório da CGU diz que a carga horária do médico é impossível de ser cumprida.

- A situação irregular do hospital municipal de Santana perdura há sete anos e meio, sem que nenhuma das três esferas da administração pública tenha tomado providências para sanar os desvios. O município de Santana não realiza sequer a fiscalização prevista no contrato de terceirização - diz o relatório.

O contrato de terceirização do hospital para a empresa do médico-prefeito prevê pagamentos por ''excesso'' de atendimentos na área médica. A empresa do ex-prefeito recebe R$ 10 por consulta e R$ 20 por cada ''radiodiagnóstico''.

Os contratos feitos em Santana nunca têm prazo para rescisão. Em 12 de janeiro de 1998, a prefeitura firmou convênio de seis meses de duração com a Andrade Galvão Engenharia, mas o contrato perdura até hoje. Com 16 termos aditivos, a prefeitura já repassou R$ 2,4 milhões para a construtora. O contrato total é de R$ 7,9 milhões.

O médico-prefeito Wilson Neves de Almeida não quis entrar em detalhes sobre os recursos recebidos. Ele afirma que só os diretores da empresa poderiam dar detalhes. Wilson diz que a empresa só recebia os repasses depois que os serviços do hospital eram prestados ao SUS. A empresa, afirma Wilson, trabalha há 29 anos para a prefeitura.

Wilson confirma ter feito ''plantão'' em Taboca do Brejo Velho (BA), mas nega ter trabalhado em Santa Maria da Vitória (BA). Também nega ter trabalhado diretamente para uma estatal, mas admite ter recebido ''bônus'' por serviços prestados. Wilson afirma que o município assumiu o hospital em agosto, após a conclusão do trabalho da CGU. O médico-prefeito diz que jamais quis dar prejuízo ao governo federal.

- Se houve erro, não foi intencional. Não houve má-fé. Não houve intenção de ferir os cofres públicos - disse Wilson Neves de Almeida.