Título: EUA ficam sem o motivo da guerra
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Fonte: Jornal do Brasil, 13/01/2005, internacional, p. A7
Casa Branca confirma que procura por armas de destruição em massa no Iraque chegou ao fim sem resultados
A Casa Branca confirmou ontem que a busca por armas de destruição em massa no Iraque chegou oficialmente ao fim. Washington informou que o chefe americano da investigação, Charles Duelfer, não vai voltar a Bagdá.
Duelfer é o autor do relatório, divulgado em outubro, que isenta o Iraque de possuir estoques de armas químicas ou biológicas, na época em que os EUA invadiram o país, há quase dois anos. O relatório também concluiu que o programa nuclear iraquiano entrou em decadência antes da invasão.
No entanto, Duelfer também afirmou que Saddam Hussein tinha o desejo de reiniciar, assim que possível, o programa de armas de destruição em massa. Em especial, após serem levantadas as sanções e para se defender de possíveis ameaças do Irã.
Segundo informações em Washington, Duelfer vai fazer algumas pequenas alterações no relatório divulgado em outubro e o novo texto será publicado daqui a algumas semanas.
De acordo com o governo americano, o Grupo de Pesquisa sobre o Iraque (Iraq Survey Group, ISG, na sigla em inglês) vai continuar trabalhando mas o foco agora será como conter os rebeldes no país árabe.
O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, confirmou a notícia, publicada ontem no jornal The Washington Post, de que a busca pelas armas terminou.
- É assim que eu vejo. Boa parte da missão do Grupo de Pesquisa está direcionada para outros problemas - disse o porta-voz.
McClellan recordou que o presidente Bush havia decidido em outubro - quando Duelfer concluiu que não havia armas de destruição em massa no Iraque - iniciar uma reforma nos Serviços de Inteligência americanos, que haviam afirmado a presença desse tipo de armamento no país árabe.
Em Londres, o porta-voz da secretaria de Relações Exteriores negou que a procura tenha chegado totalmente ao fim. O governo britânico explica que a busca física pode ter cessado, mas isso não significa que outras ações ainda estão sendo levadas à frente.
- A procura continua e vai continuar sob qualquer autoridade no comando em Bagdá - disse o porta-voz.
O caso é considerado por muitos analistas como uma falha histórica dos serviços de Inteligência americanos e britânicos que, teoricamente, garantiram aos dois governos que Saddam Hussein poderia ser um ameaça.
- Com base no relatório de outubro, podemos aceitar que Saddam tinha a capacidade de desenvolver armas de destruição em massa - disse um oficial britânico à rede BBC, fazendo alusão ao fato, presente no relatório, de que o ex-ditador tinha intenção de reiniciar o programa após levantadas as sanções e que, ao mesmo tempo, tinha meios de contrabandear petróleo, mesmo com a proibição da venda imposta pelo Conselho de Segurança.
A teoria mais repetida entre as autoridades de inteligência era a de que Saddam Hussein possuía armas no passado, inclusive porque já as tinha utilizado contra iranianos, curdos e xiitas, e que não havia feito, como a Ucrânia, o Cazaquistão e a África do Sul, que abriram seus programas à inspeção da ONU.
Segundo analistas, após entrevistas com autoridades iraquianas capturadas, como o ex-ministro das Relações Exteriores Tariq Aziz, sabe-se que o ex-ditador estava convencido de que a única forma de garantir a segurança do seu território contra israelenses e americanos era mantê-los acreditando que possuía uma capacidade de retaliação em massa.