Título: Portas abertas para o analfabetismo
Autor: Mario Gibson Barboza
Fonte: Jornal do Brasil, 14/01/2005, País, p. A2

Posso até aceitar ¿ embora não seja o ideal ¿ que o chefe de Estado seja monoglota. A unicidade de sua alta posição dá-lhe esse direito. Mas um diplomata, não. A forma como ele desempenha sua função o obriga necessariamente a falar e escrever em línguas mais praticadas e de maior circulação na comunidade internacional, como o Inglês e o Francês. Na ONU, os dois idiomas de trabalho (não os oficiais) são o Francês e o Inglês. Todos os documentos da Organização das Nações Unidas devem ser, obrigatoriamente, escritos nas duas línguas.

Eliminar a exigência do conhecimento desses dois idiomas no exame de ingresso no Itamaraty é um grave erro, que fatalmente afetará o desempenho dos diplomatas brasileiros, que até hoje gozaram de alta reputação em todos o países, como pude comprovar ao longo de um carreira de quase meio século.

Diz-se agora, com evidente intenção crítica, que o Itamaraty é ¿elitista¿. È preciso definir de que elitismo se está falando. Se por elitismo entende-se privilégios de berço ou de fortuna, tal crítica tem fundamento. Não é o caso, pois o acesso à carreira diplomática brasileira faz-se de forma impecavelmente democrática. Mas, se o elitismo é de caráter cultural, aí a crítica é extremamente equivocada e grave, pois o diplomata tem de ser de alto nível cultural para servir adequadamente o seu país.

Considero, assim, indiscutivelmente perniciosa a eliminação da exigência, no exame de admissão ao Itamaraty, do conhecimento mais aprofundado possível desses dois tradicionais idiomas diplomáticos.

O Brasil ainda tem, infelizmente, um vasto número de analfabetos. Não me parece conveniente, contudo, abrir as portas da nossa carreira diplomática ao analfabetismo.

Penso que a decisão de eliminar a exigência do conhecimento de Inglês e Francês no exame de ingresso no Itamaraty está diretamente ligada à absurda e desnecessária proposta de aumentar em 400 o numero de nossos diplomatas, no curso de quatro anos, isto é, 100 a cada ano consecutivo. È fora de dúvida que não conseguiremos aprovar anualmente 100 candidatos devidamente habilitados.

Então, a providência que se considerou adequada foi baixar o nível do exame. E com isso baixar, inevitavelmente, a qualidade da nossa representação diplomática, abalando-se com isto a prestigiosa reputação internacional de que tradicionalmente goza o Itamaraty, qualquer que seja o governo do momento.

Confesso que essa descabida decisão me preocupa profundamente. Por isso sinto-me na obrigação de denunciá-la, pois o que está em jogo é o próprio interesse nacional.

Do lado oposto dessa tentativa de vulgarizar nossa carreira diplomática, vem-me à memória a ¿boutade¿ (ai, perdoem-me a expressão ¿elitista¿) de Joaquim Nabuco: ¿o verdadeiro diplomata é aquele que consegue dar uma impressão falsa do seu país no exterior¿. Coisa que ele e outros grandes diplomatas da nossa História souberam fazer na perfeição.