Título: Diplomacia a toque de caixa
Autor: Augusto Nunes
Fonte: Jornal do Brasil, 14/01/2005, País, p. A3
Com endosso do governo, Itamaraty muda critérios dos exames para preencher mais 400 vagas até 2008
É de tamanho razoável o quadro de profissionais do Ministério das Relações Exteriores: 1051 diplomatas. De tamanho razoável e de boa qualidade, graças aos rigorosos critérios aplicados historicamente pelo Instituto Rio Branco, incumbido de selecionar candidatos à carreira. Os embaixadores são 146 (excluídos pára-quedistas como Itamar Franco ou Paes de Andrade). Há 157 ministros de segunda classe, 223 conselheiros, 186 primeiros-secretários, 189 segundos-secretários e 150 terceiros-secretários. Parece pouco para a troika formada pelo ministro oficial Celso Amorim, pelo ministro oficioso Marco Aurélio Garcia e pelo ministro de fato Samuel Alves Guimarães, disfarçado no cargo de secretário-geral do Itamaraty. Os três decidiram que até 2008 serão formados mais 400 diplomatas. ¿Com isso, será criada a figura do fast diplomat¿, pondera um embaixador.
Para abrir passagem à multidão, têm sido promovidas sucessivas agressões à sensatez. Em dezembro, um decreto do Ministério fez mais modificações nas normas que regem o ingresso no Instituto Rio Branco. Até agora eliminatória, a prova de Inglês foi transferida para a terceira fase. Virou uma espécie de penduricalho classificatório. Materializou-se a maluquice segundo a qual não é essencial o domínio da língua inglesa para se tornar diplomata. O absurdo tem o endosso do governo petista, animado com a possibilidade de ampliar a presença nas embaixadas de companheiros monoglotas. Eventuais dificuldades serão resolvidas com a contratação de intérpretes e tradutores.
¿Todos nós sempre tivemos o sentimento de que o Itamaraty tinha de ser menos elitista na maneira de buscar seus quadros na sociedade¿, disse Amorim em discurso recente. Se consultar o Houaiss, o chanceler verá que começou a complicar-se no manuseio do vocabulário nativo. ¿Elite¿ significa ¿o que há de mais valorizado e de melhor qualidade¿, resume o dicionário. É disso que o Itamaraty precisa.
Num país cujo presidente oferece pencas de maus exemplos a cada entrevista ou discurso de improviso, não é improvável que logo a prova de Português deixe de figurar entre os exames eliminatórios. ¿Se o Brasil tem tantos analfabetos, por que o Itamaraty não terá alguns?¿, ironiza um diplomata dos velhos tempos.