Título: Itamaraty rebate críticas sobre prova de inglês
Autor: Luiz Orlando Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2005, País, p. A2

Governo nega que esteja nivelando por baixo exigências para novos diplomatas

BRASÍLIA - O porta-voz do Itamaraty, ministro Ricardo Neiva Tavares, reagiu às críticas de que, para formar ''a toque de caixa'' 400 diplomatas até 2008, o Ministério das Relações Exteriores está nivelando por baixo as exigências para o ingresso na carreira. No dia 7 de dezembro, o chanceler Celso Amorim assinou portaria em que a prova de inglês deixa de ser eliminatória nos exames de admissão ao Instituto Rio Branco (IRB).

As críticas foram publicadas na edição de ontem do JB, na reportagem ''Diplomacia a toque de caixa'', de Augusto Nunes, no artigo ''Portas Abertas para o analfabetismo'', do ex-chanceler Mario Gibson Barbosa, e no editorial ''No comments''.

Segundo o ministro Ricardo Neiva, ''não há hipótese de um aluno do IRB sair de lá e ingressar na carreira diplomática sem formação adequada em inglês''. Ele argumenta que a portaria ministerial ''valoriza a capacidade intelectual e os conhecimentos em outras áreas igualmente importantes para a formação e o trabalho do diplomata, como História, Geografia, Direito, Economia e Política Internacional, além das línguas''.

- A Portaria 467 procura atrair vocações que podiam ser inibidas pelo sistema anterior, no qual havia uma hierarquia entre as provas, em função da própria ordem em que eram realizadas. Ao ser eliminado em inglês, o candidato não fazia as provas subseqüentes. Assim a portaria torna o exame mais justo e competitivo. Agora, se o candidato for aprovado e for fraco em inglês, estudará essa e outras línguas, de forma intensa, durante o curso.

Da África, o ministro Celso Amorim rebateu de forma veemente as informações publicadas pelo JB sobre suas viagens internacionais:

- São infundadas e mesmo injuriosas as referências feitas por Augusto Nunes às viagens internacionais como se fossem um ''bom negócio''.

O ministro informou que viaja ''intensamente, em consonância com as diretrizes da política externa do Presidente Lula. A decisão de ficar em hotéis ou residências oficiais brasileiras é tomada em função da natureza da visita e do trabalho''.

Celso Amorim afirma que esteve três vezes no Chile e, em duas delas, se hospedou em hotéis. Na outra, ficou na residência do embaixador. Garantiu que, na maioria das viagens, ''fica em hotéis e paga com as diárias que recebe, por vezes inferiores aos preços dos hotéis - como recentemente em visita a Barbados''.

- De acordo com a legislação, no caso de visitas presidenciais em que a hospedagem (que não inclui alimentação) é paga pelo governo brasileiro, as diárias são reduzidas a 70% de seu valor integral.

O ministro lembra que, ''quando a hospedagem é feita em residências oficiais brasileiras'', recebe 50% das diárias, ''como qualquer outro servidor público civil ou militar''.

Em relação à prova de inglês, a réplica de Ricardo Neiva assegura que ''a mudança do caráter eliminatório para classificatório da prova de inglês não prejudicará a capacidade de nossos diplomatas''.

- Esse caráter foi introduzido em 1996. Até então, a prova era classificatória. Várias gerações de diplomatas não fizeram provas eliminatórias de inglês, e nem por isso deixaram de ser bem sucedidos na carreira.

O ministro Neiva Tavares lembra que, nos anos 30, criticava-se o fato de que ''as provas favoreciam o ingresso na carreira de filhos de diplomatas, por eliminarem candidatos que podiam ter altas qualificações em outras áreas de conhecimento, mas que eram, muitas vezes, incapazes de superar a nota de corte em línguas estrangeiras''.

- No caso de um exame eliminatório, é necessário estabelecer nota mínima de aprovação. Ou seja, um candidato com nota 60 passa; outro, com 55, não. Parece óbvio que o curso do IRB será capaz de, em dois anos, igualar os conhecimentos de ambos - explicou.

A assessoria nega que a mudança reflita anti-americanismo da atual gestão e encerra a nota com uma expressão em inglês:

- Last but not least, onde estavam aqueles que criticam um suposto viés ideológico e anti-americano na nossa política externa quando o secretário de Estado, Colin Powell, veio aqui e elogiou publicamente a liderança do Brasil e a cooperação com os Estados Unidos em temas como os da Venezuela, Haiti e OMC?