Título: Sharon volta a romper com a ANP
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Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2005, Internacional, p. A8
Israel exige que Mahmoud Abbas, que só hoje toma posse como presidente palestino, contenha ataques de extremistas
JERUSALÉM - O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, ordenou ontem que todos as autoridades de seu governo cortem laços com o novo governo palestino até que o recém-eleito presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, contenha ataques contra israelenses. A ordem veio um dia depois que extremistas mataram seis civis israelenses em Karni, na fronteira com Gaza.
No primeiro contato de alto escalão entre palestinos e israelenses em anos, Sharon e Abbas conversaram por telefone esta semana. Esperava-se que os líderes se reunissem em breve para discutir a segurança relativa ao plano de Tel Aviv de retirada unilateral de Gaza, no fim deste ano.
- Acabou a lua-de-mel com Mahmoud Abbas e não haverá encontro entre ele e o primeiro-ministro. Pelo menos não por um longo tempo - afirmou ao jornal Ha'aretz o porta-voz do Gabinete, Assaf Shariv. - Os líderes internacionais já foram informados da decisão - acrescentou, aludindo aos Estados Unidos, à União Européia e à Grã-Bretanha.
Mais cedo, o governo israelense havia dito que não iria retaliar o ataque em Gaza e que daria mais tempo para que presidente eleito da ANP pudesse ''tomar as rédeas'' dos militantes.
Argumentando que ''Abbas não é responsável pela segurança, pois ainda não jurou como presidente'', o ministro palestino, Saeb Erakat, encarregado das negociações de diálogo, criticou o rompimento.
- O melhor meio de reativar o processo de paz não é congelar os contatos, mas renová-los - pediu Erakat.
Abbas, que hoje toma posse na ANP, condenou o ataque ao terminal de carga em Karni, uma linha comercial que abastece Gaza. Mas criticou também as incursões de Israel para prender militantes palestinos.
- A ação em Gaza e as operações de Israel, que na semana passada mataram nove palestinos, não contribuem para o processo de paz - disse o líder da ANP, pela manhã. - Estamos comprometidos com o plano de paz e vamos implementar nosso programa de campanha.
Tel Aviv não ficou satisfeito. Disse que esperava poder retomar negociações os palestinos - paralisadas há anos, desde antes da morte de Yasser Arafat, em novembro - mas que para tal Abbas teria de se ater às regras do Mapa do Caminho: manter os extremistas sob controle.
Abbas respondeu que preferia não confrontar militantes que lutam contra Israel. Três grupos assumiram ter participado conjuntamente da operação em Karni: o Hamas, os Comitês de Resistência Popular e as Brigadas dos Mártires al Aqsa, braço armado do Fatah. Três dos atiradores morreram e cinco civis ficaram feridos.
Antes de romper com a ANP, o governo israelense isolou completamente a Faixa de Gaza, fechando as travessias de Karni e de Erez, ao Norte. No mês passado, já havia fechado o terminal de Rafah, na fronteira com o Egito, devido a um ataque a bomba que matou cinco soldados israelenses.
- Estas passagens servem aos palestinos. Não há como esperar que elas continuem abertas se o nosso povo está sendo morto - disse uma autoridade do governo.
Segundo as redes de televisão de Israel, Sharon teria dado ao Exército ''carta branca'' para lançar uma ''vasta operação'' na Faixa de Gaza, contra grupos armados palestinos.
- Sob nenhuma circunstância vamos permitir que israelenses continuem sendo mortos e que a retirada da Faixa de Gaza seja feita sob fogo - decretou o conselheiro de Defesa do gabinete, Raanan Gissin.