Título: Torturador na Corte
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2005, Internacional, p. A9
Argentino é julgado por crimes da ditadura
MADRI - Um ex-capitão da Marinha argentina, magro e fraco depois de um mês de greve de fome, começou a ser julgado ontem sob a acusação de ter empurrado prisioneiros políticos para fora de aviões durante a ditadura militar no país (1976-1983).
Adolfo Scilingo estava com os olhos fechados e era amparado por dois policiais quando entrou na sala do tribunal em Madri, para ser réu no primeiro julgamento por genocídio realizado na Espanha.
Enquanto isso, em frente à sede da Audiência Nacional, parentes de presos políticos na Argentina exibiam fotos e cartazes dos desaparecidos.
- Scilingo fez coisas como atirar prisioneiros ao mar. Por isso, o dia de hoje marca uma etapa na História - comemorou Zulema Faciola, da Associação Argentina Pró-Direitos Humanos.
Questionado pelo juiz Fernando Garcia sobre se entendia que estava sendo julgado, Scilingo apenas respondeu com uma voz fraca:
- Minha cabeça dói.
O juiz ordenou a suspensão do julgamento 15 minutos depois, para que o ex-capitão fosse examinado. Mas só duas horas mais tarde, quando os médicos disseram que o réu estava em condições de ser julgado, o processo foi retomado. Scilingo então cobriu os olhos e não respondeu mais nenhuma pergunta de Garcia.
O ex-capitão viajou até a Espanha voluntariamente em 1997 a fim de testemunhar sobre seu envolvimento nos chamados ''vôos da morte'', ocorridos nos anos 1970. Scilingo é acusado de tortura, assassinato, terrorismo e genocídio, crimes pelos quais a promotoria pede 6.626 anos de prisão.
O Judiciário espanhol tem legitimidade para julgar qualquer acusado de genocídio se houver possibilidade de vítimas espanholas envolvidas.
O réu, de 58 anos, recusa-se a ingerir alimentos sólidos desde 12 de dezembro, como protesto por ser a única pessoa julgada em virtude de crimes cometidos pela ditadura militar na Argentina. Segundo funcionários do Poder Judiciário da Espanha, ele perdeu 13 quilos até agora.
Mas para Antonio Segura, advogado de um grupo de defesa dos direitos humanos da Argentina, Scilingo finge estar doente.
O capitão reformado havia antes confessado sua participação no assassinato de dissidentes políticos. Mais tarde, porém, voltou atrás e negou as declarações.