Título: A volta do fogo amigo na economia
Autor: Sabrina Lorenzi
Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2005, Economia & Negócios, p. A17
Meirelles defende política de juros altos e sistema de metas de inflação, rebatendo críticas do ministro Luiz Fernando Furlan
Os integrantes do governo que esperavam o fim do fogo amigo após a saída do ex-presidente do BNDES Carlos Lessa já puseram as barbas de molho. A antiga disputa entre monetaristas e desenvolvimentistas ganhou esta semana mais um capítulo. A entrevista do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, ao diário Estado de S. Paulo, com críticas à política monetária, reacendeu o debate e desagradou à cúpula da área econômica. Diante de uma platéia de empresários cariocas, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, saiu em defesa dos juros altos e do sistema de metas de inflação. E emendou dizendo que o importante para o país são os resultados a longo prazo.
Para Furlan, juros são um instrumento ineficiente para combater o aumento dos preços administrados pelo próprio governo, como luz, telefone, combustíveis. O ministro criticou ainda o real valorizado frente ao dólar. A opinião repercutiu em Brasília, com o desconforto do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e teria mobilizado até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Sem citar o ministro do Desenvolvimento - dono da Sadia e representante do setor empresarial na Esplanada -, Meirelles defendeu, durante palestra na Câmara de Comércio Americana do Rio (Amcham-Rio), que a política econômica do governo foi a responsável pelo grande número de empregos formais criados em 2004, além do aumento da renda, do controle da inflação, dos resultados da balança comercial e da redução da dívida cambial a US$ 30 bilhões (cerca de 10% do total).
- A economia brasileira está num processo de crescimento sólido, robusto... As vendas no varejo mostraram acomodação (nas últimas pesquisas), mas os dados preliminares para dezembro são bons - afirmou, sem, contudo, perder o hábito de lembrar a platéia da necessidade de controle inflacionário. - Estabilidade é precondição para o crescimento. Não há país no mundo com taxa de crescimento elevada sem o controle da inflação.
Furlan disse, na entrevista ao Estado, que a política do sistema de metas é ineficiente no combate aos preços administrados, que foram dos principais responsáveis pelo fechamento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 7,6% em 2004, muito próximo ao teto de 8%.
- Em relação aos preços administrados, aconselharia àqueles que têm interesse mais técnico sobre o assunto que leiam o relatório de inflação do BC. Tudo isso já está nas previsões, dentro do sistema de decisão das metas - disse o presidente do BC, cuja origem é a presidência do grupo financeiro Fleet Boston.
Sobre a autonomia do Banco Central, Meirelles, afirmou que a independência da autarquia já existe na prática, o que é determinante na condução da política monetária com sucesso.
- Felizmente o BC opera de maneira autônoma cedida por Lula. O fato concreto é que essa autonomia já existe e está dando certo - avaliou.
Correta também, segundo ele, é o rota de crescimento ''sólido e equilibrado'' em que se encontra o país. E classificou o debate sobre a política econômica como estéril, apesar de saudável.