Título: Rotina é necessária para a cura
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 16/01/2005, Internacional, p. A121

Milhares de corpos ainda não foram encontrados, sobreviventes vivem em abrigos, comendo graças a doações internacionais, a vida não voltou ao normal para os asiáticos afetados pelo tsunami em dezembro. Mas mesmo nestas condições adversas, psicólogos afirmam que é fundamental desenvolver qualquer tipo de rotina - ela ajuda as vítimas a se recuperar do impacto causado por um desastre natural como o maremoto.

- Principalmente as crianças precisam ter hora para comer, dormir, brincar, ir à escola. Ter o dia estruturado traz de volta a sensação de segurança, é como se a vida estivesse voltando a ser o que era - afirma a doutora Elizabeth Carll, da Sociedade Internacional de Estudo do Estresse Traumático.

Adultos também devem tomar parte em trabalhos, mesmo que não possam, por ora, voltar ao emprego que tinham.

- Participar da reconstrução, por exemplo, ajuda muito. Construir é uma mudança positiva - diz a psicóloga.

Segundo muitos especialistas em saúde mental, as crianças são as principais vítimas da tragédia. Cerca de 35% delas vão sofrer algum trauma.

- Elas viram seu mundo desabar, perderam parentes, casa, amigos, perderam referência de tudo que era familiar - explica Carll, estimando que 8% dos sobreviventes que hoje são crianças permanecerão traumatizados quando adultos.

Além da perda, há também um motivo bioquímico para que elas inspirem cuidados intensivos.

- O cérebro infantil precisa reconhecer uma ligação maternal para processar normalmente certas substâncias. Mas muitas crianças ficaram totalmente órfãs. Terão que ir para orfanatos, outras vão mendigar nas ruas, se prostituir - diz Mary Beth Williams, presidente da Associação Americana de Especialistas em Estresse Traumático. - Toda a sensação de segurança sumiu. É um choque extraordinário.

E mesmo para aqueles que têm possibilidade de voltar a um meio conhecido a rotina será desgastante.

- Pescadores, por exemplo, sentirão medo de voltar ao mar. E enquanto os trabalhadores não conseguirem lidar com o trauma, comunidades inteiras serão afetadas: a renda das famílias diminui, a economia das cidades pára de crescer - alerta Richard Heaps, professor de Psicologia da Universidade Brigham Young.

Sam Bernard, especialista em desastre, lembra que o obstáculo não é só o medo:

- Muitos não voltam a trabalhar porque não há recursos, como pescadores que tiveram redes e barcos destruídos. Foi o que também aconteceu no 11 de Setembro. As pessoas tinham emprego, mas de repente perderam o local de trabalho.