Título: Trauma se parece com o do 11/9
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 16/01/2005, Internacional, p. A121

Psicólogos afirmam que imprevisibilidade é o traço comum de atos de terrorismo e dos desastres naturais. No entanto, o primeiro tende a gerar vingança. O segundo, compaixão

Diferentes em sua origem, grandes acontecimentos como o tsunami que devastou o Sudeste Asiático e os atentados de 11 de Setembro aos Estados Unidos produzem traumas semelhantes em seus sobreviventes. Segundo psicólogos especialistas em estresse pós-traumático, estas vítimas sentem ansiedade, medo, tristeza profunda, vontade de fugir da realidade. Tudo em meio à falta de esperança, que vai demorar a passar.

- O que une os dois eventos é a imprevisibilidade - afirma ao JB Elizabeth Carll, membro da Sociedade Internacional de Estudo do Estresse Traumático, organização que trabalha com a ONU. - O que difere é que o 11 de Setembro foi um ato humano, intencional. O tsunami foi um desastre natural, não há a quem culpar.

Richard Heaps, psicólogo especializado em intervenção de crise e desastres, lembra que os atentados a Nova York e Washington despertaram fúria e busca por vingança.

- Mas desastres como o tsunami levam a um maior clamor por compaixão e ajuda para a reconstrução - diz.

Entretanto, ele concorda que ambos os acontecimentos são tão representativos que ''as pessoas começam a achar que o mundo é um lugar perigoso demais para se viver e se sentem impotentes, por não poderem controlar as ameaças''.

Mas nem só os sobreviventes experimentam extremo estresse. Pessoas a milhares de quilômetros da tragédia podem ter reações similares a das vítimas. Segundo Rosemary Schwartzbard, especialista em reação a desastres da Associação Americana de Psicólogos, o simples fato de repetidamente assistir a cenas do desastre na TV pode causar uma experiência de dissociação social:

- Elas podem ter ansiedade, dores de cabeça e de estômago - afirma.

Heaps acrescenta que os espectadores à distância também podem provar o luto, a tristeza da perda:

- É como se tivesse acontecido com eles próprios. Outros, numa reação adversa, sentem tanto medo que reprimem emoções fortes e vulnerabilidade. E deixam de se sensibilizar ao ver o sofrimento alheio.

Mas com o tempo, a vida tende a voltar ao normal, mesmo para aqueles que tiveram grandes perdas. A exceção fica em 20% das vítimas, que sofreram a perda de vários membros da família, casa, local e instrumento de trabalho.

- De qualquer maneira, não será fácil. Pela enormidade do desastre, pelo quanto afetou a vida dos asiáticos, levará anos até que consigam lidar com o luto causado pelo tsunami. Isso nós aprendemos com o 11 de Setembro. Cada aniversário será muito doloroso - diz a doutora Carll.