Título: Tarifa pública leva inflação ao teto
Autor: Samantha Lima e Sabrina Lorenzi
Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2005, Economia & Negócios, p. A19

Presidente do BC admite que alvo do IPCA em 2005, considerado ''muito ambicioso'', não será atingido

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que serve de referência para a meta anual de inflação do Banco Central, encerrou o ano de 2004 em 7,6%, abaixo do teto de 8% estabelecido pela autoridade monetária, mas 2,1 pontos percentuais acima do alvo inicial. Pressionado por tarifas de serviços públicos e preços de combustíveis - os preços administrados - o índice, calculado pelo IBGE, poderia ter fechado em um patamar ainda maior, não fosse a influência dos alimentos, que tiveram uma elevação menor que a média no ano.

No período, o grupo Alimentação elevou-se 3,86%. Foi do segmento a maior contribuição individual negativa ao IPCA, de -1,9 ponto percentual, vinda do arroz, cujo preço caiu 17%.

- Tivemos uma safra que foi quase um recorde, com 119 milhões de toneladas de grãos - analisa Eulina Nunes, gerente do sistema de índices de preços do IBGE. - Também ajudaram a desvalorização do câmbio, que joga para baixo o preço de produtos como soja e trigo, cotados internacionalmente.

Outra influência positiva para a inflação foi conseqüência do calendário eleitoral: as tarifas de transportes públicos, que costumam ter aumentos com grandes conseqüências para o IPCA, foram mantidos em várias capitais.

Do outro lado, puxaram o IPCA para cima as tarifas de energia elétrica (alta de 9,64% ao ano) e de telefonia fixa, que foi reajustada mais de uma vez no ano (alta de 14,76%), além dos combustíveis, que tiveram aumento global de 17,87%. A alta do aço, que chegou a 75%, promoveu aumentos em automóveis e eletrodomésticos.

- Esse resultado mostra que os administrados continuam sendo os vilões da inflação - avalia o professor do IBMEC Carlos Thadeu de Freitas. - Em 2005 não será diferente, porque os IGPs (Índice Geral de Preços, calculado pela Fundação Getúlio Vargas), utilizados em reajustes de energia elétrica e telefonia, estão vindo ''gordos'' do ano passado.

Para o economista, o Banco Central está sendo ''ambicioso demais'' ao estipular as metas.

- Atingir 5,1% em 2005 é impossível. A inflação tem uma inércia, não cai dois pontos de um ano para o outro. Eles terão de manter nos próximos meses a política de juros altos, penalizando mais a indústria e o comércio - diz Thadeu, que projeta a inflação de 6% em 2005.

Prevendo inflação de 5,8%, o economista Alex Agostini, da GRC Visão, também aposta em juros altos nos próximos meses, para trazer a inflação à meta.

- Produtos como o aço e o minério de ferro, que contribuíram para a alta de 2004, continuarão com preços elevados.

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, encarou como positivo o resultado do IPCA e rebateu críticas sobre a ineficácia da política monetária nos preços administrados e nas commodities, que mais pressionaram a inflação.

- O sistema de metas é o mais bem sucedido modo de combate à inflação - disse Meirelles, admitindo que a previsão de inflação este ano é de 5,3%, além do alvo de 5,1%, portanto, ''considerando o atual cenário de juros e câmbio''.