Título: 'Sou popular e nacionalista'
Autor: Paulo Celso Pereira
Fonte: Jornal do Brasil, 15/01/2005, Idéias, p. 3

Refugiado em sua ampla casa no Cosme Velho desde sua demissão da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em novembro, o economista Carlos Lessa tem se dedicado a uma de suas paixões: os livros. Amante do Rio, construiu uma biblioteca de cerca de 20 mil volumes, grande parte adquirida nos sebos. Para guardar o tesouro, comprou um terreno na rua paralela a de sua casa, onde, num imóvel projetado pela mulher Martha, está montando a nova biblioteca. Assim que acorda, às 7h, vai lá e organiza os livros nas recém-chegadas estantes. Foi nos sebos que se refugiou no conturbado período do BNDES: ¿Não só na crise, quando tinha tempo, dava um pulo neles¿. Às estantes pretende em breve acrescentar dois livros, esses de lavra própria. Um, sobre Minas Gerais, vinha sendo escrito mas foi interrompido por dois anos e meio ¿ período que ficou como reitor e em seguida no BNDES: ¿Estou fazendo uma leitura da formação do Brasil e o papel decisivo e estratégico que tem Minas no século 18.¿ Mas, antes dele, Lessa vai publicar outro explicando sua gestão no BNDES: ¿É um depoimento ao país do que aprendi, percebi e tenho a dizer sobre meu período no banco.¿ De volta à UFRJ, onde é professor titular de Economia Brasileira, Lessa acredita que sua crítica à política econômica do governo foi a provável causadora de sua demissão: ¿A crítica que fiz é a de Celso Furtado, a de todos os economistas não liberais do país.¿ Apesar das reflexões sobre presente, a obsessão dele é pelo futuro. ¿Quero tirar meu olhar da frustrante conjuntura do presente. Quero que olhem para dentro de si e vejam a reserva que temos pela frente. Se o povo estiver convencido que tem futuro ninguém o segura.¿ ¿ Houve uma frustração grande com sua saída do cargo de reitor da UFRJ.

¿ Pois é, mas aí o Lula me convidou. Eu não podia dizer não. Até disse a Lula que eu tinha um compromisso com a universidade. Então, ele escreveu uma carta pedindo que os conselheiros me liberassem. Nessas condições você não pode dizer não.

¿ Novamente na UFRJ, o senhor pretende voltar a ser reitor?

¿ Não. Para começar, nem poderia mais, não tenho mais idade pra isso. Vou ajudar o máximo que puder o professor Aloísio Teixeira, atual reitor, que eu apoiei. Agora, a universidade é uma questão de consciência nacional. Quando a visão nacional fica pequena, se desvaloriza a universidade. Porque a universidade federal é um elemento fundamental para construir o espírito, a cultura, a presença nacional no mundo. A universidade robusta é o melhor cartão de visitas que uma sociedade tem para interagir com as outras. A universidade tem que ser extremamente aberta a jogos interativos com as outras universidades do mundo. Mas você só faz a interação quando tem o que oferecer. Se você reproduz o que eles fazem, o interesse que eles têm em você é pequeno. Por isso digo que o projeto de nação exige prioridade ao sistema de ensino superior público. Aliás, sempre achei que reduzir a atividade de educação à visão de mercado é criminosa. Você educa para construir uma elite e uma contra-elite que no jogo interativo vão ajudar a história a avançar. Se você ensinar as pessoas a pensar, elas podem exercer muitas atividades. Há de se enfrentar a questão educacional mas não é pela economia. É para ser nação, para ser povo, para ter cara, para existir no mundo. Se você não quiser ¿ser¿, você dispensa a universidade, mas se você quiser ¿ser¿ você precisa dela. Isso é um divisor de águas. Essa é a relação fundamental.

¿ O que o senhor pretende fazer quando se aposentar?

¿ Eu teria que largar daqui a um ano e meio, mas não vou. Vou largar a universidade como espaço institucional, mas vou montar um programa, inteiramente informal, de pós-doutoramento. Quero fazer um mergulho, uma recuperação sistêmica e crítica de todos os pensadores sobre o Brasil. Acho que há duas perguntas que são extremamente relevantes: ¿O que é o Brasil?¿ e ¿O que é ser brasileiro?¿. Essas perguntas foram enfrentadas por muitos intelectuais brasileiros ao longo dos últimos dois séculos. Eles buscaram respostas por caminhos diferentes e queria recuperar essa discussão.

¿ O Brasil ainda não se constitui como nação?

¿ Não. A nação é um jogo interativo: por uma lado, existe a instituição; por outro, o povo nacional. Há seqüencias históricas em que o povo nacional leva pela história a necessidade de explicitar a nação. Há outros processos históricos que surgem antes da nação e ela é que dá origem a uma dialética onde o povo em si se converte em povo para si. O brasileiro está se convertendo num povo para si. O processo está se acelerando, mas ainda não se concluiu. O interessante é que a democracia brasileira está se fortalecendo muito, apesar das dificuldades e dos tropeços. Tenho confiança numa pedagogia do povo dentro do processo democrático. A nossa história nesses anos é complicada, mas as manifestações populares estão ganhando cada vez maior objetividade e referencial. Considero que o ¿Fora Collor¿ foi algo absolutamente espetacular do ponto de vista de demonstração de cidadania e tolerância política. Em seguida, houve uma grande frustração no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. E tudo isso produziu este fenômeno espetacular que é o Lula presidente. É espetacular porque não é trivial o país eleger uma pessoa que quando recebe o diploma de presidente diz: ¿Este é o primeiro diploma da minha vida¿. Lula não sabe nem com precisão o dia de seu nascimento. É uma fantástica demonstração da capacidade que o povo brasileiro tem de construir-se. Agora, o cenário político que o Lula está presidindo tem dimensões positivas, mas tem um equívoco fundamental, que é a política econômica que está adotando e que o aprisiona.

¿ Por quê?

¿ É uma política que no seu desenho macroeconômico é igual à política neoliberal, à política que o FMI recomenda, à política que os banqueiros aplaudem, de adoção das regras que o país vêm enfrentando há mais de 10 anos com estagnação econômica. Não acredito que esta política dê espaço para que as boas intenções do governo Lula possam encontrar sua materialidade. Não tenho dúvida quanto à qualidade do projeto Lula, quanto à sua sinceridade afetiva-emocional.

¿ Sua saída do BNDES tem relação com essas críticas?

¿ Na verdade, fiquei como presidente do BNDES durante 23 meses, sendo demitido praticamente todos os meses, uma ou duas vezes, pela imprensa. Fui demitido a última vez pelo presidente, porém dois ou três dias antes a Agência Estado disse que eu estava demitido. Então, ser demitido pra mim passou a ser a atmosfera normal. Agora, o que levou o presidente a me demitir eu não sei com precisão. Posso imaginar que algumas intrigas tenham prosperado. Eu só fiz crítica à política econômica uma vez, quando disse que a política executada pelo Banco Central era um pesadelo. Investi frontalmente, porque o presidente do Banco Central defendeu ante o Conselho de Desenvolvimento a eliminação dos recursos que o BNDES dispõe. Ele acusou o BNDES e a Caixa Econômica pelos chamados créditos dirigidos, acusando-os de serem responsáveis pelos juros altos. Como retirávamos da esfera de influência do Banco Central uma faixa muito grande das operações de créditos, o BC para ter efetividade no controle da inflação tinha que elevar muito os juros sobre a faixa residual de operações. É uma falácia espantosa! Mas a recomendação implícita nessa crítica era: acabe-se com os recursos que o BNDES tem. Ou seja, acabe com o BNDES. E isso eu não podia admitir. Foi a única vez que ataquei explicitamente. Agora, o que eu fazia no BNDES era diferente da política econômica que era executada no BC ou no Ministério da Fazenda. Tinha que apostar na inclusão social, no aumento das exportações e na formação de infra-estrutura. É claro que ao fazer isso implicitamente estava criticando, mas não estava formalmente criticando. Agora, se ele mantiver a idéia de acabar com o FAT do BNDES, com o recurso dos trabalhadores que vão para o BNDES, ele acaba com o BNDES. O que os grandes bancos querem é acabar com o BNDES.

¿ Seria o maior erro do governo?

¿ Aí estão os erros principais. Uma taxa de juros excessivamente elevada, que reduz a impulsão dos empresários privados em investir, aumenta espantosamente o serviço da dívida pública e reduz os gastos públicos, porque é obrigado a pagar o serviço da dívida. Por que a universidade não tem recursos? Por que as estradas tem buracos? Por que não estamos fazendo as hidrelétricas? Porque a prioridade é não gastar para sobrar recursos e pagar o serviço da dívida a uma taxa de juros elevadíssima.

¿ Depois dos livros previstos para este ano, qual é o seu projeto?

¿ Tenho na cabeça um sonho, mas ainda não está na hora de falar dele. Basicamente, acho que a idéia de futuro é fundamental. Não há fator nacional, o povo precisa estar alimentado com a idéia de um futuro melhor. A maior acusação que faço ao governo FHC, aos tucanos e neoliberais é que eles acabaram com a idéia de Brasil do futuro. Sou de uma geração que aprendeu assim: o passado brasileiro é condenável, o presente muito complicado, mas o futuro é nosso. Hoje isso está em dúvida. Grandes empresários brasileiros querem virar multinacionais e alguns já viraram. A juventude olha para frente e pergunta qual o seu futuro pessoal. Você não tem horizonte previsível de emprego. Não tem horizonte previsível de construir sua família. Se o pai de família tem medo de perder o emprego, que é o quadro de hoje, onde está o futuro? Esta é a maldição. Um povo nacional que não tem idéia do futuro se lasca. Estou convencido que é extremamente importante convocar os brasileiros para discutir sobre o futuro. Essa é a minha idéia de força no momento. Estou convencido que o Brasil é, no cenário mundial, um dos países com futuro de mais alto potencial. Somos um povo vanguarda da melhor dimensão da idéia mundo, porque não temos orgulho especial. Somos diferentes por isso, porque não temos barreira. Temos um povo admirável, temos um país com recursos naturais fantásticos, temos uma estrutura industrial já desenvolvida, temos uma agricultura extremamente desenvolvida. Não temos limitações! A não ser nossos medos. Por isso eu sou popular e nacionalista. O Brasil precisa ter um grande projeto popular e nacional. E começar por exaltar o povo brasileiro, por mostrar sem mistificação o que é esse povo. O povo brasileiro convertido num povo para si faz uma civilização para o mundo babar de inveja. Agora, nós não estamos fazendo o correto. Tem que dar à garotada a sensação de que tem futuro.

¿ Quem quis tirar o senhor do BNDES?

¿ Tem atores sociais que me viam como uma figura ameaçadora. Tenho quase certeza de que os conheço. Você não fica todo esse tempo no governo sem que as pessoas comecem a te dizer quem alimenta os jornalistas pra te atacar. Mas prefiro não falar. O presidente foi pressionado por fora. Agora, sempre existem porta-vozes dentro do governo. Mas acho que a imensa maioria dos ministros do Lula entendiam que o que nós fazíamos no BNDES era importante e cooperaram de maneira produtiva com nossa atuação. Honestamente, não posso me queixar, porque quem está na chuva é para se molhar. Quando você vai para um cargo importante e defende de uma maneira clara as suas convicções e não transige nas suas convicções, você se converte numa pessoa difícil e eu sou uma pessoa difícil. Sou extremamente fiel às minhas convicções. Posso até eventualmente operar uma autocrítica e modificá-las. Mas, a cada momento, procuro ter o máximo de fidelidade ao que acho correto. Isso me faz uma pessoa pública sujeita a chuvas e trovoadas.