Título: Israel e palestinos retomam diálogo
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Fonte: Jornal do Brasil, 20/01/2005, Internacional, p. A12

Militares se reuniram em Erez para coordenar segurança de fronteira entre a Faixa de Gaza e o território israelense

O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, decidiu ontem retomar o diálogo com a liderança palestina. Sharon e o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, concordaram com a reunião que ocorreu à noite entre os chefes de segurança dos dois lados, em Erez (Faixa de Gaza) fronteira com Israel. O esforço é para coordenar o desdobramento de forças policiais da ANP no Norte da Faixa de Gaza, com o objetivo de impedir o lançamento de mísseis Qassam contra o território israelense.

Participaram da reunião o comandante das forças israelenses na Faixa de Gaza, general Aviv Kojabi, e o chefe do Comando de Coordenação de Israel com a ANP, coronel Yoav Mordekhai. Os palestinos foram representados por Abdel Razek Al Mayaida, comandante da Segurança Pública da ANP, Amin El Hindi, chefe do Serviço Geral de Informação, e Moussa Arafat, chefe do corpo de Informação Militar.

Segundo Moussa Arafat, os militares israelenses aceitaram o plano de Abbas de destacar 750 policiais para as estradas do Norte de Gaza e para outras partes da região autônoma. Mas disseram à ANP que ''o Exército não deixará de intervir onde forem registrados atos de terrorismo''.

Abbas atua pessoalmente em outro front. Está desde a terça-feira na Cidade de Gaza, onde tenta convencer grupos extremistas palestinos a declarar cessar-fogo a Israel. À noite, o presidente teve um encontro com representantes da organização radical Hamas, que por toda a semana rejeitou o pedido de Abbas, realizando inclusive, na terça, um ataque que deixou israelenses feridos.

Entretanto, segundo analistas, pouco adianta neste momento qualquer esforço de Abbas, pois Sharon está se sentindo muito fortalecido politicamente.

''O premier aprovou seu plano de retirada de Gaza, mesmo sob críticas dos colonos. Seu inimigo, Yasser Arafat, morreu no mesmo mês em que George Bush foi reeleito para a Presidência dos Estados Unidos. Tudo conjurou para que Sharon tivesse a oportunidade de retomar as rédeas das negociações de paz com os palestinos - em seus próprios termos, claro'', escreveu no jornal britânico The Guardian Ian Black, analista político para o Oriente Médio.

Segundo Black, o primeiro-ministro, ''que sempre teve um estilo trator de governo'', se aproveita também do dilema pragmático do novo presidente da ANP, que tendo recebido 64% de apoio nas eleições palestinas de 9 de janeiro, teme ser duro demais com os extremistas e fomentar uma guerra civil.

''Israel gosta do estilo negociador de Abbas, embora não possa admitir'', acrescenta o analista. ''Mas o gabinete em Jerusalém também reconhece que ele é tão impermeável quanto Arafat quando se trata de questões importantes do diálogo de paz, como os assentamentos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, a divisão de Jerusalém e as fronteiras''.