Título: Lula, agora, recua do otimismo
Autor: Monteiro, Viviane
Fonte: Jornal do Brasil, 02/04/2008, Economia, p. A18
Pela primeira vez, presidente admite que recessão prolongada nos EUA afetará Brasil
Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu ontem em discurso no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social que a crise americana preocupa "todas as pessoas que têm juízo" e disse que, se os EUA passarem por uma recessão profunda e prolongada, "o Brasil não estará imune". Foi a primeira vez que Lula usou tom menos otimista ao se referir a eventuais reflexos no país das turbulências americanas.
¿ Vocês sabem que a crise americana preocupa todas as pessoas de bom senso, eu diria, todas as pessoas que têm juízo, porque nós sabemos a importância dos EUA no comércio mundial, tanto a sua capacidade de venda quanto a sua capacidade de compra ¿ disse. ¿ E nós sabemos que, se uma recessão prolongada acontecer nos EUA, pode ter reflexos na economia mundial e, certamente, o Brasil não estará imune a uma crise profunda nos Estados Unidos.
Lula comparou a instabilidade na economia americana a uma CPI, em que "todo dia aparece uma notícia, todo dia aparece uma denúncia". Para o presidente, a crise é grave e uma prova disso foi a injeção de recursos dos bancos centrais europeus para criar "alguns Proer".
Inflação
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, também admitiu que a crise afeta países emergentes, mas assegurou que o Brasil está a salvo. Mantega reiterou que o governo tem trabalhado para garantir o crescimento sustentado, que ainda não foi impactado pela crise econômica internacional, considerada "séria". Entretanto, ele disse ser necessário dar um impulso às exportações. Tal setor, diz, será beneficiado pela política industria a ser anunciada nos próximos dias.
Mantega descartou a existência de ameaças inflacionárias em virtude do aumento da massa salarial, apesar de o Banco Central ter manifestado, em sua última ata, a preocupação com ajustes nos índices de preços. Porém, o ministro disse ser necessário manter a "vigilância" nos gastos correntes que também elevam a demanda agregada da economia. Com isso, disse o ministro, o governo federal pretende fazer um corte de R$ 20 bilhões no Orçamento que foi sancionando na dia 24 por Lula. O contingenciamento, já previsto anteriormente pelo governo federal, é para recompor parte da perda de recursos com o fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF).
Mantega parece estar mais preocupado com a redução do ritmo das exportações, o que deve gerar déficit nas contas correntes em 2008, do que com a inflação. O ministro disse que a inflação brasileira está sob controle e, por enquanto, ela não representa nenhuma ameaça ao crescimento.
¿ A inflação está em um patamar bastante razoável e o crescimento é sustentável, porque os aumentos da demanda e da renda não estão gerando inflação ¿ discursou. Ele lembrou que a taxa de inflação brasileira já é a das mais baixas entre os países menos desenvolvidos.
A análise do ministro se opõe a avaliação do Banco Central, que na última quinta-feira, anunciou na alta a elevação das estimativas para a inflação, medida pelo IPCA para 2008 e 2009. Apenas para este ano, a projeção que era de 4,3%, em dezembro, subiu para 4,6%, superior ao centro da meta de 4,5%.
Durante a sua apresentação na reunião, Mantega acrescentou que o aumento da demanda, que hoje cresce 7% em média, também não deve surtir picos inflacionários sobre a economia, pois os empresários brasileiros têm investido e modernizado o parque produtivo. Inclusive, destaca, o crescimento econômico acontece com o aumento da produtividade.
Sem citar nomes, Mantega criticou os analistas "heterodoxos" que não acreditam que a economia brasileira possa crescer 5% ao ano, sem causar inflação.