Título: Volta (aos poucos) das liberdades
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 03/04/2008, Editorial, p. A8
Embora ainda insuficientes, são auspiciosas as mudanças promovidas em Cuba. No poder desde que foi eleito pela Assembléia, depois de o irmão Fidel Castro abrir-lhe espaço em decorrência de seus problemas de saúde, o novo presidente Raúl Castro imprimiu, em 40 dias, mudanças significativas que, se não cicatrizam as feridas deixadas pelo regime ditatorial em vigor no país há cinco décadas, pelo menos iniciam um processo de distensão das liberdades para os cubanos. O atual governo passou a tornar comuns, neste período, quase todos os direitos fundamentais ¿ antes uma heresia para os artífices do comunismo de Cuba.
Embora com atraso, ressalve-se o valor das mudanças, sinal evidente de abertura ao exterior preconizada por Raúl Castro. No início desta semana, por exemplo, deu-se o fim do chamado "apartheid turístico" na ilha, que traz esperança para cubanos que, justificadamente, viam na medida uma injustiça. Direito elementar em nações sublinhadas pela sensatez, os cubanos agora poderão freqüentar os mesmos hotéis visitados por turistas, pagando os mesmos preços. Beirou o risível a justificativa da proibição: pouca disponibilidade hoteleira e o intuito de não "incentivar a desigualdade" no país.
O governo anunciou outras mudanças, como o uso de celulares por todos, autorização para compra de ferramentas e insumos por produtores privados, liberação de computadores e certos eletrodomésticos ¿ ar-condicionado, contudo, só no verão do ano que vem. O próximo desafio de Raúl será a moeda dupla. Equivalente a US$ 1,08, o peso conversível é o único aceito para a compra de produtos e serviços do setor de turismo. Hoje, 60% da população cubana tem acesso ¿ além do peso cubano ¿ ao peso conversível. A difícil tarefa de conciliar a melhora do poder aquisitivo sem provocar uma temível inflação, no entanto, promete ser o grande teste do novo líder.
O denominado Período Especial ¿ processo iniciado na ilha após o colapso da União Soviética ¿ revelou-se como o mais soturno momento da história para a população cubana e, duvidosamente, chegou próximo de se tornar um momento de desenvolvimento particular. Antes de assumir, porém, Raúl já dava sinais de uma détente política. Conforme prometeu, busca agora eliminar o "excesso de proibições" na nação. Como acertadamente afirmaram analistas, o novo pacote nada mais é do que uma resposta às milhares de queixas expressadas pela população.
Embora Cuba ainda inspire viúvas do pensamento rupestre de Fidel, inclusive no Brasil ¿ inspiração alimentada pelos arroubos do coronel Hugo Chávez, seu seguidor-mor ¿ é chegado o momento de deixar acesa a esperança de que a ilha venha a respirar novos ares muito em breve. Há muito tempo o "bem coletivo" enterrou liberdades individuais em Cuba. As idéias de um líder podem ser absorvidas, nunca impostas. Tal processo resultou em desgaste da própria ideologia. Desejos e anseios tornaram-se vocábulos vetados frente a um embargo econômico que, com o passar das décadas, tornou-se também cultural.
Empenho humanitário
A busca do governo fluminense por médicos em quantidade suficiente para enfrentar a batalha contra a dengue evidencia o tamanho da barafunda em que mergulhou a saúde pública brasileira ¿ e do Rio, em especial. Ontem se produziu um novo capítulo.
Depois do colapso da rede pública, em que faltaram leitos para doentes com dengue, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, deslocará médicos que trabalham em atividades burocráticas no Rio para atender à população enferma. Para dar conta do número de pacientes com dengue, Temporão deu aval para que o governador Sérgio Cabral chame até médicos de Cuba. Mesmo com o déficit de 154 pediatras para o combate, o governador decidirá até domingo ¿ data em que chegam médicos recrutados de outros Estados ¿ se contratará os estrangeiros. Os profissionais cubanos seriam importantes no auxílio aos brasileiros, já que adquiriram experiência quando Cuba passou por epidemia semelhante na década de 80.
Em meio ao desespero generalizado, é imprescindível que a prefeitura some forças junto às esferas estadual e federal pela vida no Rio. A situação emergencial em vigor exige todo tipo de força-tarefa. Tem razão Sérgio Cabral ao cobrar colaboração da prefeitura e pedir que abra os postos de saúde nos fins de semana, com atendimento ininterrupto. Como é compreensível a reação de parlamentares diante do alerta emitido na edição de ontem do JB: o prefeito Cesar Maia sumiu. Fugiu do combate contra a doença. Refugiou-se no seu mundo virtual, escondido num endereço eletrônico.
O mesmo empenho deve ser cobrado dos médicos. Que seus salários não fazem jus à formação e ao cotidiano estressante da profissão parece indiscutível. Recorrer a esse argumento em pleno enfrentamento contra a dengue revela-se indelicado, inconveniente e insensato.