Título: Rice promete 'mais conversa'
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Fonte: Jornal do Brasil, 19/01/2005, Internacional, p. A7

Futura diplomata-chefe dos EUA alerta Cuba e Venezuela em sabatina no Senado. Pesquisa aponta baixa aprovação de Bush

WASHINGTON - A candidata à chefia da diplomacia americana (Secretaria de Estado), Condoleezza Rice, prometeu ontem melhorar as relações dos Estados Unidos com o mundo com uma diplomacia de ''mais conversa e menos monólogo''. Segundo Rice, os EUA se guiam pela convicção de que ''nenhuma nação pode construir um mundo melhor e mais seguro sozinha''.

- Essa convicção guiará minhas ações - declarou Rice ante o Comitê de Relações Exteriores do Senado, encarregado de sabatiná-la antes de aprovar ou rejeitar sua nomeação, feita pelo presidente George Bush.

Um desafio de Rice, segundo a própria futura secretária, será estender a democracia ao Oriente Médio, embora também esteja preocupada, disse, com ''redutos de tirania'' como a Coréia do Norte, Cuba, a Bielorrúsia, o Zimbábue e a Birmânia. Junto a Cuba, outro país latino-americano citado pela assessora de Segurança Nacional foi a Venezuela.

- O governo de Hugo Chávez não tem sido construtivo. Temos que demonstrar que conhecemos as dificuldades que esse governo está causando aos vizinhos - afirmou.

Neste momento, Rice comparou a Venezuela com o Brasil que, segundo ela, tem sido muito mais ''cooperativo'':

- Tivemos encontros governamentais e conseguimos prosseguir com a agenda.

Rice ressaltou ainda a ''associação estreita'' de Chávez com Fidel Castro.

- Essas relações são muito preocupantes para nós e para mim pessoalmente - disse.

A assessora de Bush afirmou também estar preparada para se envolver na busca da paz entre israelenses e palestinos.

- Há uma oportunidade e nós devemos aproveitá-la - declarou. - Mas não posso substituir as partes na disposição em assumir responsabilidades.

A Autoridade Palestina comemorou as declarações da futura secretária de Estado.

- As declarações são alentadoras, já que é necessária uma maior intervenção americana na região - disse o porta-voz da ANP, Nabil Abu Rudeina.

Condoleezza afirmou ainda que insistirá em fazer com que Irã e Coréia do Norte não possuam armas atômicas.

- Devemos insistir para que os dois países abandonem as ambições nucleares e optem pelo caminho da paz - disse.

Rice confirmou aos senadores que o presidente Bush confia que ''o êxito'' das eleições e da democratização no Afeganistão e no Iraque ''darão força e esperança aos reformistas'' por todo o Oriente Médio.

Depois do comitê de Relações Exteriores votar a nomeação, e caso seja favorável - o que é a tendência - a candidatura será submetida à aprovação plenário do Senado. A última votação pode ocorrer na quinta-feira, imediatamente depois da cerimônia de posse do segundo mandato do presidente.

A Casa Branca adiantou que um ponto central do discurso de Bush na posse, será a unidade do país.

- Tenho a responsabilidade de tentar unir este país, para conseguir grandes feitos para todos os americanos. Direi isso em meu discurso - disse Bush

O presidente adiantou que tem ''uma agenda ampla em mente'' para o novo mandado:

- Devemos seguir trabalhando e alcançar alguns objetivos, antes que as pessoas se sintam decepcionadas.

Expressou também o desejo de que republicanos e democratas colaborem no Congresso e levem adiante as propostas legislativas da Casa Branca.

Sobre política externa, o presidente reafirmou o projeto para o Iraque e o Afeganistão.

- Ter as eleições é uma vitória para aqueles que amam a liberdade - precisou.

Uma pesquisa publicada ontem pelo jornal The Washington Post revela que a principal preocupação dos cidadãos americanos hoje é a situação no Iraque, muito acima de qualquer assunto de política interna e seguida da luta contra o terrorismo. Um total de 61% dos entrevistados consideram que a ''prioridade'' de Bush e do Congresso deve ser o conflito no país árabe.

Ainda de acordo com a sondagem, o nível de aprovação de Bush se situa em 52%, a mais baixa de um presidente nas vésperas do início do segundo mandato. Bill Clinton tinha 60% e Ronald Reagan, 68%.

No entanto, 45% dos cidadãos confiam em Bush para liderar o país, frente a 39% que estimam que as coisas seriam melhor com um presidente democrata. Além disso, 55% esperam que Bush será melhor no segundo mandato, frente a 29% que consideram que será pior.

Um total de 58% desaprovam a gestão da Casa Branca no Iraque mas, ao mesmo tempo, 73% apóiam a decisão de manter as eleições no país no próximo dia 30, ao considerar que podem ser chave para uma futura retirada das tropas americanas do Oriente Médio.

Quanto aos festejos e atos previstos para a cerimônia de posse, cujo custo ascende a US$ 40 milhões, 66% preferiam algo mais discreto pelo fato de o país estar em guerra.

A enquete, elaborada entre 12 e 16 de janeiro, entrevistou 1.007 adultos e tem uma margem de erro de três pontos percentuais.

Outra pesquisa foi publicada pelo instituto Gallup, segundo a qual mais da metade dos americanos, 52%, consideram que os EUA se equivocaram quando decidiram invadir o Iraque.

Cerca de 47% dos cidadãos americanos acham, no entanto, que o governo fez o correto e 1% disse não ter uma opinião clara a respeito.