Título: Real forte atrapalha Brasil, diz FMI
Autor: Exman, Fernando
Fonte: Jornal do Brasil, 09/04/2008, Economia, p. A17

Valorização de 20% da moeda em relação ao dólar e juro alto atraem capital especulativo

Enviado especial a Washington

Apesar do otimismo do governo, relatório divulgado ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta as vulnerabilidades do Brasil e de outros países em desenvolvimento em relação às turbulências financeiras geradas nos Estados Unidos ¿ como o fortalecimento do real. Atraídos por taxas de juros altas, investidores tomam empréstimos em moedas de países com menores taxas, convertem o valor para a moeda do lugar que tenha juros maiores e embolsam a diferença. A atividade, conhecida como carry trade empurra a cotação do país com maior taxa para cima.

As preocupações do FMI têm explicação: a estimativa da instituição é que a crise cause perdas agregadas de US$ 945 bilhões. O montante refere-se aos efeitos negativos sobre os preços dos imóveis, o não pagamento de hipotecas e danos nos segmentos de crédito a pessoas físicas e jurídicas.

Só os estragos nos dois primeiros fatores somarão US$ 565 bilhões. Se as avarias atingirem instituições financeiras não bancárias, como seguradoras, os estragos serão ainda maiores. Investimentos privados serão cortados, preços de ativos cairão e os balanços corporativos se deteriorarão. Como resultado, a produção e as vagas de trabalho diminuirão. Segundo o Relatório da Estabilidade Financeira Global, que faz parte da série de estudos divulgada antes da reunião ministerial anual do Fundo, "está claro que a atual crise é mais que um simples evento de liquidez. Revela profundas fragilidades, o que significa que os efeitos devem ser mais amplos e prolongados".

Para o FMI, a crise já ultrapassou a fronteira do segmento de alto risco do mercado de crédito imobiliário americano. Está chegando aos empréstimos de menor risco de inadimplência concedidos aos consumidores finais e a empresas. Além disso, devido a falhas no sistema de gestão de riscos, instituições financeiras de outras regiões começam a ser afetadas.

¿ É muito difícil dizer a distribuição geográfica da crise ¿ comentou Peter Dattels, chefe da Divisão de Monitoramento de Mercado Global e Análise do Departamento Monetário e de Mercados de Capitais do FMI.

Sem liquidez

Já no caso dos países em desenvolvimento, destaca o documento, uma das vulnerabilidades é a possível falta de liquidez internacional. Sofrerão mais os países que apresentam grandes déficits no balanço de conta corrente e aqueles que recebem financiamentos externos para impulsionar o crédito doméstico. Além disso, complementou o FMI, a redução do volume de recursos disponível no mundo deve prejudicar os títulos públicos e os mercados acionários de Brasil, México e Rússia. Entre os países emergentes, o Brasil é um dos principais destinos dos investidores estrangeiros.

O FMI pondera que o mercado de crédito brasileiro cresceu em grande parte devido ao aumento dos depósitos domésticos, e não por causa de financiamentos estrangeiros. Depois de apresentar saldos positivos nos últimos anos, entretanto, o Brasil deve passar a registrar déficits na balança de conta corrente. As expectativas de analistas de mercado captadas pelo Banco Central (BC) são de saldos negativos de US$ 12,1 bilhões e US$ 13,9 bilhões neste ano e em 2009, respectivamente.

Não bastasse, o organismo multilateral cita o continuado fortalecimento do real como uma fragilidade. No ano passado, só a alta registrada pela lira turca em relação ao dólar foi maior do que a do real. A moeda brasileira valorizou-se 20% em 2007, contra 21,1% da lira turca. A queda do dólar frente o euro foi de 1,6% no período.

¿ Os países emergentes têm ido bem, mas precisam de políticas que atuem contra essas vulnerabilidades ¿ comentou Jaime Caruana, diretor do Departamento Monetário e de Mercados de Capitais do FMI. Segundo o FMI, os países que dependem de financiamentos externos precisam implementar planos de contingência que reduzam essa exposição. Assim, conseguirão reduzir o impacto de uma eventual diminuição da liquidez internacional.

Já o desafio dos países desenvolvidos é agir de forma imediata a fim de mitigar incertezas e aumentar a confiança no sistema financeiro. Para tanto, o FMI endereçou recomendações a empresas e ao setor público. A iniciativa privada tem de aumentar a transparência do mercado e fortalecer as estruturas de governança. Se a interação entre diferentes instituições for ampliada, explicou a instituição, a gestão de riscos será aperfeiçoada.

O Fundo sugeriu também que as instituições recuperem lastro financeiro, o que as ajudará a ter mais capacidade para enfrentar novos solavancos do mercado.