Título: Desafios atrasam desenvolvimento
Autor: Gerk, Cristine
Fonte: Jornal do Brasil, 09/04/2008, Internacional, p. A23

Democracia instável e educação precária são males que persistem na América Latina

A democracia está estabelecida em todos os países latinos, como uma promessa de solução para graves problemas sociais que enfrentam. Mas para o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, José Miguel Insulza, a atuação de governos democráticos não é garantia de estabilidade para investimentos na região. Caso estes problemas não sejam resolvidos pelos governos em breve, como espera a população, a tendência é que as nações apelem para líderes com propostas mais fortes. Segundo Insulza, esta desconfiança afasta investimentos.

A discussão esteve em pauta no sábado, segundo dia do 11º MIT Sloan Latin Conference, em Boston, que tratou de desafios a serem superados. Insulza ponderou que o gerenciamento macro-econômico na região melhorou, mas os sistemas financeiros não estão totalmente sólidos e os de impostos são instáveis.

¿ Até quando o crescimento continuará? Se a economia mundial começar a decair, seremos afetados? São muitas incertezas ¿ acrescentou. ¿ A América Latina espera que o governo resolverá tudo, mas na maioria das vezes ele não é moderno ou eficiente nem tem muita transparência. Logo, pode falhar e levar à ascensão de líderes mais fortes.

Insulza lembrou que a criminalidade é um problema sério: 75% dos seqüestros do mundo acontecem na América Latina. A solução seria investir em educação. Mas o continente só participa com 2,9% do investimento mundial no campo de pesquisa e desenvolvimento.

Em um dos painéis, Santiago Bilinkis, CEO da Officenet Argentina, também criticou o fato de que há poucas pessoas qualificadas no continente empenhadas na produção de novas soluções. A maioria só tenta sobreviver e copiar modelos:

¿ Os latinos têm de aprender a pensar grande ¿ completou.

Integração

Maria Beatriz Nofal, presidente da Agência Nacional de Desenvolvimento de Investimentos da Argentina, acredita que a integração do continente é uma das principais chances de desenvolvimento.

¿ A Argentina tem crescido 8% ao ano, uma das maiores taxas na América Latina e no mundo, e é o mercado mais importante para o Brasil ¿ defendeu.

Já André Tanure, CEO da BrasilLog, apontou a burocracia como o principal desafio:

¿ Começar um negócio no Brasil leva 150 dias, na Austrália são apenas dois ¿ lamentou.

A importância de proteger investidores pequenos e das empresas produzirem produtos adaptados à cultura local, com preços mais acessíveis, foi listada por vários palestrantes. Marcos Troyjo, diretor-geral do JB, que co-organizou o evento com a Gazeta Mercantil, destacou também a necessidade de os latinos investirem em um business grade e não apenas em um investment grade.

¿ Precisamos ter um plano de negócios, adaptar o modelo de comércio para termos a capacidade de unir universidades e empresas, investir em inovação e conhecimento, ter ferramentas de capital e conhecimento para crescer por adaptação criativa. Não crescemos só por inovação ¿ destacou Troyjo.

Para Eduardo Braga, governador do Amazonas, é preciso dar valor econômico a áreas de floresta, ou elas serão desmatadas, "prejudicando os negócios no mundo".