Título: Os descaminhos de uma investigação
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 10/04/2008, Opinião, p. A8

Depois de intensa pressão, o governo parecer ter cedido e, no fim da linha, encontrou uma única possibilidade como saída: curvar-se às queixas da oposição e recorrer à Polícia Federal para que investigasse o vazamento do polêmico dossiê FH. Por ora, mostra-se acertada a medida do Planalto de ordenar uma investigação sobre o caso, ainda que na tática venha, sub-repticiamente, a intenção de calar as cobranças dos opositores.

O que era até então chamado de exagero e especulação lançados pela imprensa ¿ como tachou a própria chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff ¿ agora entra para a rol de saias justas do governo e torna-se caso de polícia. Vazamento, o objeto de investigação dos agentes federais, é prática criminosa cuja pena prevista em lei pode chegar a três anos de prisão.

Ao dar início ao mando do governo federal, foram apreendidos seis computadores ¿ cinco notebooks e um desktop ¿ que serão submetidos à perícia. Começaram, ainda, a serem interrogados servidores do Planalto sobre a estrutura e os níveis de acesso ao banco de dados que teria dado origem ao dossiê sobre os gastos do governo tucano.

A fim de descobrir quem teve acesso às informações "sigilosas" ¿ e não quem produziu o documento ¿ a investigação federal (com aval do ministro da Justiça, Tarso Genro) peca ao não se concentrar na devida identificação dos envolvidos no escândalo. Diante do risco de a busca ser executada segundo as regras do governo, parlamentares da oposição prenunciam, com certa dose de razão, uma "farsa" no lugar da investigação ora iniciada.

É difícil acreditar que, no caminho que leve à descoberta de provas verídicas acerca do processo de vazamento, não se esbarre na identidade do autor. Há argumentos de sobra que justificam a necessidade de se descobrir quem compilou o dossiê. Afinal, idealizador, solicitante, autor e método carregam no histórico culpa semelhante, levando-se em consideração que atuaram para o mesmo fim.

Não deixam de ser intrigantes as conclusões prévias a que se chega ao ligar os fatos, ainda que precipitadamente. Pensar na possibilidade de que o vazamento tenha existido com o único fim de incriminar a oposição toma contornos assustadores. Ainda faltam peças para que explicações e versões contraditórias se encaixem nesse xadrez. Seria mesmo Erenice Guerra, braço direito de Dilma, quem solicitou a elaboração do dossiê no momento em que estourava a crise decorrente da divulgação de gastos com os cartões corporativos da equipe ministerial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em fevereiro?

Sem mais especulações, espera-se, por fim, que a Polícia Federal cumpra o seu papel em busca da verdade e mantenha autonomia suficiente para não atuar conforme as conveniências de quem convocou a investigação: o governo. Da mesma forma, espera-se que o órgão subordinado ao Ministério da Justiça aja prudentemente caso se confirme o golpe baixo de um vazamento com intuito de, mais que chantagear, calar a oposição.

Que a ação não tome como exemplo as CPIs que há anos assombram o Congresso sem chegar aos resultados esperados. É lamentável que não exista prazo definido para que a análise de conteúdo dos computadores seja finalizada. Mesmo os 30 dias para a conclusão do inquérito pelo delegado podem ser prorrogados, dependendo da evolução da investigação.

E que o popular "acabar em pizza" do Brasil repouse na ironia do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN) ¿ ao comentar a nova CPI da Casa ¿ e não contamine a busca.