Título: ONU ataca produção de etanol
Autor: Severo , Rivadavia
Fonte: Jornal do Brasil, 15/04/2008, Economia, p. A18
A produção em massa de biocombustíveis representa crime contra a humanidade por causa do impacto nos preços mundiais dos alimentos, declarou ontem o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler. Os críticos argumentam que o uso de terras férteis para cultivos destinados a fabricar biocombustíveis reduz as superfícies destinadas aos alimentos e contribui para o aumento dos preços dos mantimentos.
Em Brasília, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) reconhece que a produção de biocombustíveis pode ser um fator de risco para a segurança alimentar no curto prazo, mas acredita que etanol e biodiesel têm condições de serem transformados em aliados no combate à fome, desde que sejam acompanhados de políticas públicas eficientes que estimulem a agricultura familiar, aumentem a oferta de crédito e tenham uma estrutura de mercado que favoreça o comércio de alimentos sem amarras protecionistas.
¿ O problema da fome é de acesso aos alimentos ¿ disse o representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe, José Graziano da Silva, que coordenou o programa Fome Zero. Segundo ele, a elevação do preço dos alimentos é causada porque o consumo cresce acima da produção há três anos, o que reduziu os estoques. Além disso, houve aumento da demanda mundial por alimentos, puxado pela China e pela Índia.
¿ Não é uma situação de alarme, mas os governos devem ficar atentos e proteger as populações mais carentes ¿ enfatizou.
Segundo Graziano, a solução do problema não está na erradicação da produção de biocombustíveis e sim no aumento da produção e da produtividade de grãos.
Grãos
A produção mundial de grãos é de 2,1 bilhões de toneladas por ano o que seria suficiente para alimentar toda a população do planeta, mas 815 milhões de pessoas passam fome, lembrou o especialista.
Sobre a polêmica da produção de biocombustíves, um programa do governo brasileiro que foi contestado por organismos como Banco Mundial (Bird) e Fundo Monetário Internacional (FMI), semana passada, e vários países latino-americanos no primeiro dia da 30ª Conferência Regional da FAO, Graziano avaliou que "não há verdades absolutas sobre os efeitos do biocombustível em relação à alimentação das populações mais carentes", mas afirmou que é agora que os governos devem tomar as medidas adequadas para prevenir contra a falta de comida para os mais necessitados.
A previsão da FAO para a América Latina é que as Metas do Milênio da Nações Unidas de erradicar a fome e a pobreza extrema, previstas mundialmente para 2015, sejam alcançadas no subcontinente dentro do prazo para o problema da subnutrição infantil e em 2025 para toda a população.
Embora a subnutrição da América Latina tenha baixado de 59 milhões para 52 milhões de pessoas, que representam 10% da população, entre 1990 e 1994, ainda é número muito alto na visão da FAO. Nesse ritmo, 40 milhões de pessoas ainda estarão subnutridas em 2015.
O representante do governo brasileiro, embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho, defendeu a política bioenergética do país e atribuiu o problema à atitude protecionista, com subsídios agrícolas de países ricos como EUA e Europa.