Título: Preço da comida na agenda global
Autor: Exman , Fernando
Fonte: Jornal do Brasil, 11/04/2008, Economia, p. A17

A escalada nos preços dos alimentos diante do forte crescimento da demanda no mercado mundial mobilizou ontem autoridades em todo o planeta. Desde o ano passado, os preços de alimentos subiram em média 40%. Nos últimos três anos, a alta foi de 83%.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que iniciou viagem oficial de dois dias à Holanda, disse que é necessário produzir mais em nível mundial, mas que não se pode culpar o investimento nos biocombustíveis pela pressão.

Segundo ele, o aumento dos preços de alimentos se dá pelo fato de "as pessoas pobres estarem começando a comer" em lugares como China, Índia e América Latina.

¿ A solução é produzir mais, e não me digam que o aumento de preços é por causa dos biocombustíveis.

Lula afirmou que, no Brasil, há produtos como leite e feijão, cujos preços sofreram mais pressões no mercado interno, mas afirmou que esta é uma questão "fácil de resolver", já que o país tem território suficiente para produzir mais.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird) alertaram para os perigos do aumento das cotações das commodities. O Brasil, ressaltou o presidente do Banco Mundial (Bird), Robert Zoellick, tem papel estratégico. Por ser um grande produtor de diversos produtos agrícolas, pode dividir experiência com outros países para ajudar a aumentar a oferta global.

¿ Enquanto alguns estão preocupados em encher o tanque de seus carros com um petróleo cada vez mais caro, muitos ao redor do mundo se debatem para forrar seus estômagos. E isso fica mais difícil a cada dia ¿ disse Zoellick.

O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, propôs que os países do G8 elaborem pacote contra o encarecimento dos produtos, que "ameaça anular os progressos" do desenvolvimento, e analisar o impacto dos biocombustíveis.

As declarações de Zoellick, do diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, e de Gordon Brown deixam o Brasil em delicada situação. Uma das principais bandeiras do governo Lula, o etanol é apontado como um dos vilões dessa "superinflação", segundo o Bird.

Gelo e fogo

Em Brasília, o representante da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) para América Latina e Caribe, José Graziano, disse que a crise mundial de alimentos é fruto de ataque especulativo. Graziano alertou que as causas são crescimento da demanda mundial por alimentos sem crescimento similar da oferta e menores estoques de produtos agrícolas dos últimos 30 anos. A desvalorização da moeda americana ainda provocou a migração dos investimentos para a compra de commodities agrícolas.

¿ Estamos em uma situação entre o gelo e o fogo. O gelo tem a ver com a desaceleração econômica, enquanto o fogo está relacionado com a inflação ¿ disse Strauss-Kahn. ¿ Isso reflete fatores estruturais e cíclicos, incluindo a importância obtida pelos biocombustíveis nos últimos anos. Isso é preocupação central.

O diretor-gerente do FMI disse que a organização está preparada para oferecer ajuda aos países por meio de assistência técnica e suporte financeiro. O aumento da produtividade, destacou, será essencial para garantir a alta da oferta. Em relação ao desaquecimento da economia, Strauss-Kahn ressaltou que um dos efeitos colaterais da crise iniciada nos EUA será o aumento do custo de financiamento e a redução do fluxo de capitais para os países emergentes.

Segundo dados das duas instituições, os preços dos alimentos subiram 48% desde o fim de 2006. Nos últimos três anos, a alta foi de 83%. Só o trigo subiu 181%. Nesse mesmo período, todo o aumento verificado na safra global de milho foi transferido para a produção de álcool combustível nos Estados Unidos. Por isso, os estoques de alimentos estão em níveis baixos recordes.

Além do crescimento do interesse pelos biocombustíveis, diversos fatores causam a elevação das cotações dos alimentos. Devido à alta do diesel e dos fertilizantes, os custos de produção também aumentaram. Em algumas regiões, o clima não contribuiu. A demanda também cresceu. Com o aumento da renda na China, o consumo de carne subiu e tende a continuar alto ¿ o que gera um impacto no mercado de grãos.