Título: Obolsa família cumpre seu papel
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 06/04/2008, Economia, p. E1

Não importa então em que o pai usa o dinheiro do Bolsa Família? ­ Não me importa o que o pai faz com o tempo dele. Para o Bolsa Família, pouco importa se o pai bebe cachaça, trabalha ou vai jogar sinuca na esquina. Não faz diferença. A produtividade dessa pessoa já é muito baixa. O que se perde em produtividade hoje é compensado pelo aumento de produtividade da criança no futuro. Ela está na escola hoje e vai trabalhar com muito mais capital humano daqui a 15 anos. É essa a idéia. Portas de saída e limites do Bolsa Família, tudo isso decorre simplesmente de as pessoas não entenderem a natureza do programa. Certos críticos atacam o fato de os beneficiários estarem consumindo, com um dinheiro que poderia ser investido na educação, por exemplo. ­ Qual o problema de con- sumirem? Nunca vi alguém reclamar que um aluno de mestrado esteja usando a bolsa que recebe na compra de roupas elegantes. Não entendo por que o pai da criança que ganha bolsa para cursar o ensino fundamental não pode comprar uma televisão. É crítica de quem não entendeu o Bolsa Família. O objetivo não é tirar a família da miséria, mas aumentar o investimento em capital humano dos pobres. Sem essa compreensão, qualquer análise feita estará equivocada. A questão é saber se o programa está mantendo as crianças na escola. Os dados mostram que sim. Há um efeito inegável no aumento do consumo. O Nordeste teve um forte impulso. ­ Era um efeito esperado, mas não deixa de ser um subproduto. Eu chamo a atenção para o outro efeito senão começamos a perder a noção do objetivo do programa. No futuro, pode-se descontinuar o programa pelas razões erradas. Peguemos a crítica ­ por que não pegar esse dinheiro e investir em educação? Porque não. Caso se transfira esse dinheiro para a escola, os alunos pobres não irão para a sala de aula. Não irão porque precisam trabalhar. Por isso me concentro nessa crítica. Há dois aspectos. Um é o aumento da renda. O outro é a renda permanente que o programa permite. Isso reduz o grau de incerteza e permite maior acesso a bens de consumo. O programa se autodestrói se for bem-sucedido. Na hora em que as crianças forem educadas, o programa deixará de ser necessário. O senhor tocou antes na oposição entre o investimento nos jovens e nos mais velhos. Em termos orçamentários, qual o peso dos idosos? ­ O governo gasta com apo- sentadoria e pensão 13% do PIB. Gasta com o Bolsa Família 0,8% do PIB. Gasta, com aposentadoria e pensão per capita, 22 vezes do que gasta com ensino fundamental. Vou repetir: o Brasil gasta, com aposentadoria e pensão per capita, 22 vezes do que gasta com ensino fundamental per capita. O Brasil resolveu investir no passado. Acho que é o único país do mundo que fez isso. Tem 7% da população com mais de 65 anos e gasta 13% do PIB com aposentadorias e pensões. É o padrão da Alemanha, que tem mais de 22% da população formada por idosos. Enquanto isso, o Brasil tem quase 30% da população com menos de 15 anos e gasta 3,5% do PIB com ensino fundamental. Um disparate. Um fato que tem recebido destaque é o crescimento da classe C e a melhoria das classes D e E. Nos últimos cinco anos, cerca de 20 milhões de pessoas ingressaram na classe C, movimento intensificado nos últimos 17 meses. Qual a razão? ­ Há várias coisas ocorrendo. O Brasil passou um período muito longo de reformas institucionais importantes, que prepararam o país para crescer muito mais: reforma no sistema de crédito, privatizações, abertura da economia, estabilização, lei de falências. Foram iniciadas ainda governo Sarney e continuadas por Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula. Cada presidente pôs um tijolinho nessa construção e gerou esse processo que estamos vivendo neste momento. Esse crescimento acaba gerando aumento de emprego, de renda e de crédito. É um círculo virtuoso que o Brasil está vivendo. Os programas sociais ajudam, na medida em que trazem a sociedade para cima. O mercado tem dificuldade de atingir o muito pobre. Os programas sociais trazem os muito pobres para o mercado. É uma coisa boa. Ele compra televisão e o filho dele vai para a escola. É um ponto interessante, ainda que, nesse momento, a demanda esteja crescendo mais do que a oferta e possamos ter uma pressão inflacionária que provavelmente forçará o Banco Central a aumentar os juros ao longo desse ano. Mas é um problema conjuntural. Não tenho dúvida de que esse processo veio para ficar. ­ Não gosto de falar em sorte. Falar em sorte significa incapacidade de entender os processos. Houve um acúmulo de reformas extremamente importantes. O presidente Lula também fez reformas, como a lei de falências, o crédito consignado, as mudanças na concessão do crédito. Se alguém me disser "ele não fez nenhuma revolução", vou concordar. O que Lula acrescentou a esse conjunto, além das reformas microeconômicas? A expansão de um programa social importante. Trouxe uma parte da sociedade para dentro da economia de mercado. É claro que o ambiente internacional foi bom, mas foi bom para todos. E nem todos aproveitaram. Soube aproveitar quem fez o dever de casa. O senhor escreveu um ar- tigo dizendo que, para o Brasil, é melhor que a recessão venha logo. Quanto antes, melhor. ­ É uma visão iconoclasta, di- ferente da média do mercado (risos). Esse artigo foi escrito há um mês, num período em que os preços de commodities estavam crescendo fortemente no mercado internacional, o que sinalizaria que, apesar de toda a recessão americana, ainda havia um excesso de demanda por commodities. Se a recessão fosse muito leve, esse aumento de preços iria persistir, e os bancos centrais aumentariam os juros rapidamente. Seria ruim para o Brasil. Sairia capital do Brasil e levaria o Banco Central brasileiro a aumentar os juros. Mas os preços das com- modities parecem ter se estabilizado. ­ Estabilizaram. E por essa razão não está muito claro para mim que esse é o cenário mais provável. É muito importante que o excesso de demanda diminua para que os preços caiam e se reduza a pressão inflacionária que existe hoje. Tirando Canadá, EUA, Inglaterra e Japão, todo o mundo está ou aumentando os juros ou mantendo-os constantes. Se essa pressão não ceder quando a recessão americana acabar, vai aumentar, e os bancos centrais precisarão aumentar juros rapidamente. Se vai ter recessão, é importante que tenha logo, de modo que reduza a pressão sobre os preços de commodities. Com todas as mudanças ci- tadas pelo senhor, qual a agenda de um governo pós-Lula? ­ A grande agenda do Brasil é a agenda educacional. Fico surpreso com o fato de a taxa de retorno ser tão alta e haver tão pouca demanda por educação de qualidade. Não vejo nenhum político ter como plataforma séria a melhoria da qualidade da educação do país. Essa é a agenda do futuro do Brasil. Há poucas coisas que economista sabe de verdade (risos). Uma delas é que os únicos fatores certos que geram crescimento econômico no longo prazo são inovação tecnológica e capital humano. Se não investirmos aí, nosso crescimento será barrado. Guilherme Gonçalves FUTURO ­ "Programas sociais trazem os muito pobres para o mercado. É uma coisa boa", avalia José Márcio.

Tirando Canadá, EUA, Inglaterra e Japão, todo o mundo está ou aumentando ou mantendo os juros. Se a inflação não ceder, bancos centrais vão aumentar as taxas Há poucas coisas que economista sabe de verdade. Uma delas é que os únicos fatores certos que geram crescimento são inovação tecnológica e capital humano O Brasil gasta com aposentadoria e pensão per capita 22 vezes do que gasta com ensino fundamental. O país resolveu investir no passado Mesmo que tenhamos uma crise internacional? ­ Mesmo que isso ocorra, o efeito sobre a economia brasileira não deve ser muito forte. Na pior das hipóteses, se houver um desastre muito grande, o Brasil deve crescer alguma coisa entre 3% e 4%. Acho que está muito bem. Não é nenhum crescimento chinês... ­ Nem devemos esperar um crescimento chinês. A China está em outro patamar de desenvolvimento, se comparado com o Brasil. Tem 40% da população no setor rural e está se urbanizando muito rapidamente. Pegue o camponês chinês e ponha para trabalhar na cidade. O ganho de produtividade nessa transferência é enorme. O Brasil viveu isso nas décadas de 50, 60 e 70. Isso permite que a China cresça muito mais rapidamente sem gerar pressão inflacionária, porque a produtividade da economia está aumentando muito. Só por aumento de estoque de insumos. O Brasil já passou por esse processo. Não é mais possível. Mas a sensação de bem-estar na economia brasileira é de crescimento bastante razoável. Estamos crescendo perto do nosso potencial, o que é bastante saudável. Esse movimento não será abortado no curto prazo. Com o nível atual de investimentos, podemos crescer 5% ao ano sem gerar pressão inflacionária. No médio prazo, poderemos crescer 6%. Os investimentos vão se manter, mesmo com uma recessão americana? ­ Acho que sim, porque o con- sumo é muito forte. A solução ideal para esse problema é o governo consumir menos. Mas não vejo muita perspectiva de ocorrer. Se o governo consumisse menos, os investimentos privados aumentariam. Qual o papel do presidente Lula para os bons indicadores brasileiros? Sorte, como querem os adversários, ou competência?