Título: Se vai ter recessão, que tenha logo
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 06/04/2008, Economia, p. E1

"Se vai ter recessão, que tenha logo" Rodrigo de Almeida José Márcio Camargo é da estirpe de economistas preciosos ao país: tido como "neoliberal" por petistas mais radicais e benevolente com o governo Lula pelos tucanos mais empedernidos. As gralhas de um lado ou de outro podem até gritar, mas a maioria saberá reconhecer nele a audácia e a competência de quem propôs uma das mais bem-sucedidas idéias contra os males nacionais. Há 15 anos, um artigo seu sugeria a criação daquilo que começou como Bolsa Escola, cresceu e se apurou como Bolsa Família e ajudou a mudar a face do país. Para Zé Márcio, como lhe chamam os amigos, o Brasil ingressou num círculo virtuoso, decorrente do programa e das reformas dos últimos 20 anos. Não é pouca coisa. Para o professor, noves fora um problema conjuntural deste ano ­ pressão inflacionária, com suave redução do crescimento ­ o Brasil vai muito bem, obrigado. "Este é um processo que veio para ficar", sugere. "Mesmo se houver um desastre muito grande, vamos crescer entre 3% e 4%", diz, referindo-se ao fantasma da vez: a recessão americana. José Márcio acha, no entanto, que se houver recessão, será melhor para o Brasil que ocorra o quanto antes. "Seria ruim para nós uma crise só em 2009", afirma. "Se vai ter recessão, é importante que tenha logo, de modo que reduza a pressão sobre os preços de commodities". A seguir as idéias do professor sobre a crise e os efeitos do Bolsa Família. Dados recentes do IBGE, di- vulgados nos últimos dias, mostram aumento do percentual de beneficiados por programas sociais do governo ­ de 15,6% para 18,3% do total de domicílios do país. São 10 milhões de lares. Nesses domicílios, a renda, o consumo e o atendimento dos serviços de água e esgoto subiram. Soma-se a isso a expansão do crédito no país e se criou um ambiente de fortalecimento das classes mais baixas. Achamos o rumo certo? ­ Há diferentes tipos de pro- gramas sociais no Brasil. Existem, por exemplo, programas de assistência a idosos que, aos 65 anos, têm direito a um salário mínimo, independentemente de terem contribuído para a Previdência Social. E há os programas ligados à infância, como o Bolsa Família. Para mim, os programas ligados à infância fazem mais sentido, do ponto de vista do futuro do país, do que os programas ligados aos idosos. Mas existe uma enorme confusão quando as pessoas analisam o Bolsa Família: acreditar que o objetivo do programa é resolver o problema da pobreza no Brasil. Na verdade, esse é o subproduto do Bolsa Família, não o seu objetivo. É uma conseqüência? ­ Não exatamente uma con- seqüência, mas um subproduto. O Bolsa Família parte de um pressuposto complicado, baseado numa série de pesquisas científicas. Segundo essas pesquisas, entre 0 e 7 anos as pessoas têm maior capacidade de aprendizado. A partir daí, a capacidade de aprender reduz consideravelmente. Significa que o custo de ensinar uma pessoa velha é extremamente elevado, ao contrário do custo de ensinar as crianças. O Bolsa Família quer, portanto, comprar o tempo da criança de uma família pobre para que ela permaneça na escola. O maior custo para uma criança de família pobre é o tempo que ela deixa de trabalhar. É o que chamamos de custo de oportunidade da criança. Como ela está na escola, não trabalha. E como não trabalha, está deixando de ganhar renda. Uma criança de família pobre contribui com até 30% da renda familiar per capita. É muito dinheiro para se abrir mão. Então o Bolsa Família compra o tempo da criança para que ela fique na escola e aprenda. A função é essa. O fundamental é investir na escola, no capital humano da criança. E essa função vem sendo bem cumprida? Uma das críticas ao Bolsa Família sugere que o programa deveria ser passageiro. Teme-se pelo "efeito-preguiça", pois o programa incentivaria os beneficiados a não mais procurarem emprego. E questiona onde está a porta de saída. ­ A única porta de saída é edu- cação de qualidade dessas crianças. A história mostra que alfabetizar adulto em massa é muito difícil. Tão caro que é quase impossível. Todos os países que resolveram o problema de educação, o fizeram pondo as crianças em tempo integral nas escolas. A primeira coisa, portanto, é colocar as crianças em tempo integral nas escolas desde cedo. As famílias pobres têm pouca cultura, poucos recursos, pouca educação. Se as crianças não fazem o que têm de fazer na escola, não farão em casa. Quando uma criança de classe média ou rica não consegue fazer o dever em casa, os pais ajudam. Numa família pobre, os pais não têm como ajudar. Ou a criança faz na escola ou não faz. Então é fundamental que isso seja feito na escola. A criança pobre tem de estar na escola em tempo integral. É mais uma razão para você pagar o tempo dela. Desse ponto de vista, a única saída é escola de qualidade.

E N T R E V I S TA

I JOSÉ MÁRCIO CAMARGO Continua na pág. E2

Uma criança de família pobre contribui com até 30% da renda familiar per capita. É muito dinheiro para se abrir mão O governo erra porque grande parte do investimento é direcionado para a universidade pública, onde os ricos estudam Guilherme Gonçalves FOCO ­ "Gasto por estudante universitário é 10 vezes maior que no ensino fundamental", diz José Márcio ­ O IBGE mostra que a evasão escolar é menor entre as crianças que recebem o Bolsa Família do que aquelas que não recebem. Significa que essa função está sendo bem cumprida. O problema é que o sistema educacional público é de baixa qualidade. O passo seguinte é melhorar a qualidade da educação pré-escolar e fundamental. O governo tem errado sistematicamente na política educacional. Erra porque grande parte do investimento é direcionado para a universidade pública, onde os ricos estudam, ou para o ensino de segundo grau. Por que erro? ­ No Brasil, o gasto por es- tudante universitário é 10 vezes mais do que o gasto per capita no ensino fundamental. Só o Brasil tem essa relação. Nenhum outro. A universidade pública e gratuita é cara, e o gasto ainda está aumentando, pois tem crescido o número de vagas. Desse ponto de vista, a política educacional do governo brasileiro está equivocada. A alocação de recursos está errada. O governo tem implantado medidas visando a acompanhar melhor a qualidade do ensino, incluindo práticas de avaliação. Isso não é positivo? ­ A função do MEC é prestar informação à sociedade sobre a qualidade das escolas e universidades. Esse deveria ser o objetivo fundamental do ministério, muito mais importante do que ficar controlando a qualidade dos cursos, sobretudo os privados. Quando o estudante está disposto a pagar pela faculdade em que estuda é porque o que ganha de benefícios é maior do que o que está pagando. Caso contrário, seria um idiota. Como as pessoas não são idiotas, pagam por algo que vale a pena para elas. Dito isto, não faz o menor sentido o MEC querer fechar faculdade porque supostamente são ruins. Elas são aquilo que estudantes estão dispostos a pagar. A discussão da qualidade já vem de há algum tempo. O que falta para torná-la prática? ­ Vejo dois problemas. Um é político. O ensino pré-escolar e o ensino fundamental são responsabilidade das prefeituras, o segundo grau é dos governos estaduais, e o ensino superior é responsabilidade do governo federal. Portanto, a intervenção do governo federal no ensino fundamental é complicada. O segundo problema é a falta de foco. Esse governo tem pouco foco no investimento em educação.

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