Título: Manifestantes atacam sírios
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Fonte: Jornal do Brasil, 16/02/2005, Internacional, p. A12
Washington chama embaixador em Damasco e ONU pede investigação sobre atentado de segunda-feira
BEIRUTE - Libaneses enfurecidos atacaram ontem trabalhadores sírios, numa onda de ódio contra a Síria, que incluiu ataques a representações do país, acusado pela morte do ex-primeiro-ministro do Líbano Rafik Hariri. Em uma escalada da pressão sobre o regime sírio, Washington chamou de volta o embaixador em Damasco, e o Conselho de Segurança da ONU condenou o ataque de segunda-feira, exigindo o cumprimento da Resolução 1559, que prevê a retirada dos 16 mil soldados sírios do Líbano.
A família do morto rejeitou um funeral com honras de Estado para Hariri, pois ''não deseja estar junto dos que foram incapazes de garantir sua segurança'', em referência ao presidente libanês Émile Lahoud, tutelado por Damasco.
Lahoud teve recentemente o mandato prorrogado por mais três anos por pressões da Síria, numa decisão que foi criticada por Hariri.
Pelo menos cinco trabalhadores sírios ficaram feridos antes das forças de ordem terem detido as agressões de dezenas de libaneses contra emigrantes do país vizinho na cidade de Sidon, no Sul do Líbano e terra natal de Hariri.
Os ataques ocorreram ontem à noite, quando centenas de manifestantes atiraram paus e pedras contra o escritório de interesses sírios em Beirute, onde o regime de Damasco não tem embaixada por considerar o país parte integrante da Grande Síria.
Hani Hamud, assessor de Hariri, acusou o governo de ''fabricar uma montagem'' contra o ex-premier e vários de seus colaboradores, acusando-os ''das piores infâmias, como a de serem agentes de Israel ou do exterior, traidores da nação e conspiradores contra o interesse nacional''.
- Se isto não é um chamado à sua morte, não sei o que é - declarou Hamud.
A Organização para a Vitória e a Jihad no país de Sham (nome antigo da Síria e do Líbano), desconhecida até o momento, assumiu o atentado que matou Hariri e outras 14 pessoas no local. No entanto, segundo especialistas, a exatidão e a potência do veículo carregado com explosivos fazem com que o atentado possa ter sido cometido com o apoio de um Estado.
Com o pretexto de proteger o Líbano de Israel, a Síria mantém nesse país cerca de 16 mil soldados desde o fim da guerra civil libanesa, em 1989, e apesar dos acordos de paz que puseram fim à disputa antes da retirada das tropas do Estado vizinho, há mais de uma década.
Além do contingente militar, há uma ampla rede de serviços secretos sírios que transformaram o regime de Damasco em pouco mais que um árbitro da política libanesa, uma situação contra a qual Hariri se rebelou depois que a prorrogação do mandato de Lahoud o obrigou a renunciar, há seis meses, ao cargo de chefe do governo.
O departamento de Estado americano afirmou, por meio do porta-voz Richard Boucher, que a Casa Branca está ''profundamente ofendida'' com o assassinato de Hariri.
Em Nova York, o Conselho de Segurança da ONU pediu ao secretário-geral do organismo, Kofi Annan, que faça um relatório sobre as causas e repercussões do ato terrorista.
Em declaração aprovada por unanimidade, o organismo condenou ''energicamente'' o atentado de segunda-feira e afirmou ter esperança de que o Líbano ''se manterá unido'' e usará ''meios pacíficos'' para manter as aspirações de ''soberania, independência e integridade territorial''.