Título: Mendes e a tentação da onipotência
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Fonte: Jornal do Brasil, 24/04/2008, País, p. A3
Ministro assume o comando da mais alta corte do país pregando o uso racional das MPs
Em meio aos discursos, muito conchavo e olhares cruzados Karla Correia BRASÍLIA Um pequeno teatro de sutilezas políticas e pequenas querelas se desenrolava no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) enquanto transcorriam os discursos na posse do novo presidente do tribunal, ministro Gilmar Mendes. O figurino sisudo da platéia, que pouco se aventurou além do preto e dos matizes de cinza, mal camuflava o animado fervilhar de cochichos entre políticos de variadas colorações partidárias. Os 50 minutos de discurso do ministro mais antigo do Supremo, Celso de Mello foram demais para o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho que, para o desespero de seus assessores, cochilou enquanto Mello se desmanchava em elogios à ministra Ellen Gracie, que deixa a presidência do tribunal. Um providencial copo d'água foi servido para acordar o chefe do Legislativo. Do lado oposto do plenário, entretanto, o clima estava bem mais tenso. Sentaram-se lado a lado os ex-presidentes José Sarney (PMDB), Fernando Collor de Mello (PTB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Eram observados à distância pelo rei Pelé que, colocado entre os melhores assentos do plenário a convite do santista Gilmar Mendes, assistia a tudo com soberano alheamento. Queixo erguido Collor ao centro, Sarney à sua esquerda e FHC à direita. Impávidos, de queixo erguido, mal se falaram durante a maior parte da cerimônia, em um desconforto evidente. Das filas de trás, um governador tucano fez chacota. Três pescoçudos ria, enquanto cutucava colegas. Partiu de Sarney um desajeitado gesto de quebra-gelo, ao chamar FH para um comentário rápido. Sentado no meio dos dois, sem ser chamado para a conversa, Collor exibia um sorriso protocolar. Só foi merecer um olhar de esguelha de Fernando Henrique já quase no final da cerimônia, quando atendeu o celular em meio a um discurso. Festa tucana Atrás da cena, a ala reservada aos governadores era praticamente uma festa tucana, onde o governador de São Paulo, José Serra, movia-se com desembaraço. Cochichou longamente com o deputado Raul Jungmann (PPS-PE) e com o senador César Borges (PR-BA). Trocou idéias com o colega de partido Cássio Cunha Lima, governador da Paraíba. Acenou discretamente para conhecidos em filas distantes. E então chegou o governador mineiro Aécio Neves, seu rival na contenda antecipada pela candidatura tucana à Presidência da República em 2010. Serra fixou a atenção na solenidade enquanto Aécio, atrasado por um problema na decolagem de seu avião, em Belo Horizonte, cumprimentava colegas tucanos e peemebistas com efusividade. O rumor na platéia aumentou de tom. Impedidos de sair da solenidade, sob pena de não poder retornar ao plenário, todos os convidados cochichavam. Menos Pelé, que observava tranqüilo a cerimônia. Aplaudido de pé quando sua presença foi citada pelo novo presidente do STF, o rei sorriu ao fim da cerimônia, onde chegou acompanhado pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM). Os ânimos se acalmaram, as pessoas sorriram e se encaminharam para o coquetel do lado de fora do tribunal. Abordados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Collor, FHC e Sarney apertaram-se as mãos, na saída do Supremo. E saíram, muito sorridentes em frente às câmera.
Ministro presidirá, de saída, 2 ações polêmicas BRASÍLIA O ministro Gilmar Mendes as- sume a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) num momento em que duas questões altamente polêmicas estão para ser julgadas no mérito: a ação de inconstitucionalidade contra o dispositivo da Lei de Biossegurança que permite o uso de células embrionárias consideradas inviáveis, para fins de pesquisa e terapia; e a questão da demarcação contínua da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, determinada por decreto presidencial de 2005, e contestada em 33 ações, sobretudo por produtores de arroz e até uma associação de índios que ocupam 1% da área de 1,7 milhão de hectares, destinada a abrigar cerca de 15 mil índios. O presidente do STF não tem poderes especiais para determinar que ações sejam julgadas com maior ou menor presteza. Os ministros-relatores ou os que interromperam julgamentos com pedidos de vista dos autos é que decidem sobre a conveniência e a possibilidade de levar os processos ao plenário, na dependência de seu andamento, freqüentemente interrompido pelas partes interessadas. A ação de inconstitucionalidade contra o dispositivo da Lei de Biossegurança referente às células-tronco foi proposta em maio de 2005, pelo então procurador-geral da República Cláudio Fonteles. Só no último dia 5 de março depois de vários "incidentes processuais" e da primeira audiência pública realizada na história do STF a ação começou a ser julgada pelo plenário. No caso da Reserva Raposa/Serra do Sol, o ministro-relator que também é Ayres Britto aguarda que o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, libere o parecer sobre um dos dois processos que estão mais adiantados (Petições 3.388 e 3.405, no acompanhamento processual do STF). No último dia 10, o Supremo suspendeu, por unanimidade, a operação da Polícia Federal de retirada da população não-indígena da reserva. (L. O. C.) Luiz Orlando Carneiro BRASÍLIA O ministro Gilmar Mendes as- sumiu, ontem, a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), numa cerimônia de duas horas, com muita pompa e segurança, que levou ao tribunal além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Fernando Collor de Mello, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, governadores, ministros e parlamentares. Édson Arantes do Nascimento, o "rei" Pelé, que é amigo de Mendes, torcedor do Santos Futebol Clube, e outras 2 mil pessoas também prestigiaram a solenidade. O sucessor de Ellen Gracie encerrou a solenidade com um discurso de 20 minutos, no qual destacou, a certa altura, que "por mais eficiente que se torne, o Judiciário não pode tudo", e "não devemos cair na tentação da onipotência e da onipresença em todas as questões de interesse da sociedade". Mendes aproveitou a oportunidade para reafirmar ser "necessário encontrar um modelo de aplicação das medidas provisórias que possibilite o uso racional desse instrumento". Longo discurso No início da solenidade, num discurso de 50 minutos que o Lula ouviu com cenho cerrado, sem qualquer reação facial o decano do tribunal, ministro Celso de Mello, falando em nome dos colegas, fez uma veemente defesa do STF como guardião e intérprete da Constituição, e respondeu, indiretamente, a críticas feitas recentemente pelo próprio presidente Lula de que o Supremo tem ultrapassado, em alguns casos, como no da fidelidade partidária, suas competências. Cabe ao Supremo velar pela integridade da Constituição e neutralizar qualquer ensaio de opressão estatal afirmou. Esta Corte não se curva a ninguém, nem admite os abusos que emanem de qualquer esfera dos três poderes. Nem se censure o comportamento afirmativo do Judiciário. A Constituição é muitas vezes desrespeitada pela omissão do Estado. Celso de Mello disse mais que "a omissão do Estado, que deixa de cumprir a imposição ditada pelo texto constitucional, é comportamento político-jurídico da maior gravidade, porque o poder público, mediante inércia ou omissão, está também descumprindo a Constituição". Judicialização Para o decano do STF, a "cres- cente judicialização da política converteu o tribunal em árbitro dos conflitos políticos, como revelam as inúmeras ações de inconstitucionalidade e argüições de preceitos fundamentais ajuizadas pelo presidente da República, governadores, parlamentares e partidos políticos". Para o novo presidente do Supremo, no entanto, "não há `judicialização da política', pelo menos no sentido pejorativo do termo, quando as questões políticas estão configuradas como verdadeiras questões de direitos". É certo, por outro lado, que esta Corte tem a real dimensão de que não lhe cabe substituir-se ao legislador, muito menos restringir o exercício da atividade política, de essencial importância ao Estado constitucional disse ainda no seu pronunciamento. Democracia se faz com política e mediante a atuação de políticos. Conciliador, Gilmar Mendes ressaltou no seu discurso que "os poderes da República encontram-se preparados e maduros para o diálogo político inteligente, suprapartidário, no intuito de solucionar um impasse que, paralisando o Congresso, embaraça o processo democrático. De fato, nos Estados constitucionais contemporâneos, legislador democrático e jurisdição constitucional têm papéis igualmente relevantes concluiu. Folha Imagem CONVERSA A DOIS Lula e Mendes, na solenidade ontem: mais de 2 mil pessoas foram ao STF O REI Pelé chega com Arruda para a posse: celebridade eterna Folha Imagem