Título: PF inicia a ocupação do território
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/04/2008, País, p. A3
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, ontem, em Haia, onde se encontra em visita oficial, que as negociações entre forças federais, indígenas e arrozeiros na terra indígena Raposa/Serra do Sol (Roraima) sejam mantidas por mais um ou dois meses para evitar um confronto violento. Se nós pudermos gastar um ou dois meses a mais e fazer as coisas na paz e na tranqüilidade, nós faremos. Certamente que alguns arrozeiros estão querendo ser vítimas e nós não vamos fazer vítima. As vítimas ali são os índios que moram no espaço que nós já demarcamos disse. O Supremo Tribunal Federal (STF) indeferiu anteontem o pedido da Advocacia-Geral da União (AGU) de manter a operação de retirada dos não-índios da reserva indígena Raposa/Serra do Sol. Com a decisão, a Polícia Federal fica impedida de dar continuidade à Operação Upatakon 3 para liberar a área. A decisão do STF atende a pedido feito pelo governo de Roraima em uma ação protocolada na segunda-feira para suspender a retirada dos habitantes não-índios enquanto não houver uma posição da Corte sobre as ações contra a homologação da terra. Resistência A Polícia Federal quer retirar os arrozeiros do local, mas encontra a resistência da categoria. O envio de homens da PF e da Força Nacional de Segurança (FNS) tem por finalidade cumprir em sua totalidade o decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005, que homologou como terra indígena contínua a Raposa/Serra do Sol. (Folhapress) MAU CAMINHO Demóstenes: autoridade não pode se beneficiar ABr
RAPOSA/SERRA DO SOL
PF inicia a ocupação do território
Federais entram na reserva indígena. Em Boa Vista, tropa de choque realiza treinamento Vasconcelo Quadros BRASÍLIA Embora não possa retirar nenhuma das famílias de não índios que ainda permanecem na Reserva Raposa/Serra do Sol, a Polícia Federal passou a fazer o patrulhamento e, discretamente, a ocupar pontos estratégicos que estavam sob controle de arrozeiros e índios que ameaçavam enfrentar com armas e explosivos a operação suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O grosso da tropa que estava em Boa Vista cerca de 500 homens da PF e da Força Nacional de Segurança percorreu ontem boa parte das estradas que cortam a reserva de 17 mil quilômetros quadrados, especialmente os trechos localizados nos principais focos de resistência, a Vila Surumu e a sede do município de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Máquinas agrícolas, caminhões e demais equipamentos foram retirados de vários pontos pelos próprios arrozeiros para desobstruir as estradas durante o período em que vigorar a trégua. A polícia vai ocupar e instalar bases nos pontos estratégicos. Em vez do enfrentamento, a tática agora é negociar já dentro da reserva. Agora a missão não é de retirar ninguém. Vamos fazer a segurança pública da reserva e evitar crimes disse o delegado Fernando Segóvia, responsavel pela Operação Upatakon III, suspensa na quarta-feira. A mesma decisão considera, no entanto, que a permanência da polícia na região é legítima. O patrulhamento é uma ação preventiva para evitar choque entre os índios favoráveis e contrários à demarcação da reserva em área contínua. Mas também representa um avanço tático da polícia que, nos últimos dias, tinha dificuldades até para ingressar na região, em decorrência das armadilhas, buracos nas estradas, pontes destruídas, balsas paralisadas e riscos de explosões em vários trechos de estrada ocupados pelos arrozeiros. Se estiver no interior da área e a decisão do STF for favorável ao governo federal, a polícia tem condições de fazer a retirada de forma menos traumática. A reação dos indios a favor da reserva contínua é uma incógnita caso o STF impeça a saída dos arrozeiros. Segundo a polícia, se a Upatakon tivesse sido suspensa em meio à retirada, os índios terminariam a operação por conta e risco. Para driblar a ociosidade, os policiais de choque da Polícia Federal se exercitam treinando uma série de táticas anti-distúrbio em Boa Vista, ações que têm despertado a curiosidade da população. Ontem os policiais detonaram bombas de efeito moral e checaram a eficácia dos escudeiros lançando objetos de todos os tipos em direção à tropa. Embora alguns moradores do Bairro 31 de Março tenham se assustado com o barulho de bombas, gritos e fumaça, Segóvia explicou que tudo não passava de um teste. Ordem superior Segundo o delegado, os 500 ho- mens deslocados para Roraima de vários pontos do país permanecem na área até que haja uma ordem superior ou o STF julgue o mérito da ação cautelar impetrada pelo governo de Roraima e que resultou numa vitória parcial dos grupos contra a demar HORA DE TREINAR Tropa de elite da PF treina: disparos, bombas e gás assustaram moradores Folha Imagem
Está decidido: a PF permanecerá na região até que o STF decida se haverá a retirada cação. O grande derrotado nessa dis- puta foi o governo federal, que montou uma mega-estrutura para fazer a desocupação sem a garantia jurídica de que o STF pudesse interromper a ação. O clima de insegurança, os riscos de confronto sangrento com o desencadeamento de um processo de desobediência civil misturado à táticas de guerrilha e, especialmente, a insatisfação da área militar com o processo todo, eram segredo de polichinelo. O governo ignorou e agora corre o risco de se ver obrigado a recuar mais uma vez. A Polícia Federal ainda não tem uma avaliação fechada sobre o custo da Operação Upatakon III, que foi projetada para durar dois meses. A outra ação de vulto que está em andamento na região Amazônica, a Arco de Fogo para combater o desmatamento durante um ano foi estimada em R$ 200 milhões, um gasto alto em função do tempo e da necessidade de se construir abrigo para os policiais