Título: No avião, 14 horas para selar a paz
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 25/01/2005, País, p. A4

Lula quer aproveitar viagem à Suíça para unificar o discurso da área econômica e aparar divergências entre Dirceu e Palocci

É no conforto do novo Airbus presidencial, conhecido como AeroLula, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende afinar o discurso da área econômica e aparar de uma vez por todas as arestas entre o chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Ontem, o presidente decidiu que, além dos dois, vão integrar a comitiva ao Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Os ministros Eunício Oliveira, das Comunicações, e Celso Amorim, das Relações Exteriores, também estarão na Suíça. A viagem está marcada para quinta-feira, e Lula terá mais de 14 horas de vôo para, enfim, colocar um ponto final nas divergências internas. A interlocutores, disse que vai ponderar durante a viagem que o governo precisa estar unido sobretudo este ano, em que espera deslanchar os programas considerados prioritários para o andamento da máquina. Diante disso, insiste que a equipe econômica esteja em sintonia, sob pena de a população e os formadores de opinião lançarem dúvidas a respeito da eficácia das medidas anunciadas pelo governo. Em entrevista ainda no ano passado, Dirceu admitiu guardar sérias discordâncias com Palocci no que diz respeito à condução da política econômica. No entanto, garantiu que as decisões do presidente Lula seriam seguidas à risca, concordasse ele ou não. Na última semana, o ministro Furlan também fez duros ataques à política econômica, provocando mal-estar no núcleo do governo. O que mais incomodou o Planalto foi seu ataque à condução da política cambial e o fato de Furlan se apresentar como porta-voz dos empresários, dizendo estar no governo para aprender como funciona o setor público antes de voltar à iniciativa privada. No Fórum Econômico Mundial, o presidente falará a respeito do combate à pobreza e da execução dos compromissos assumidos com as Metas do Milênio, estabelecidas pelas Nações Unidas. Seu retorno está marcado para o próximo domingo. Antes de embarcar para Davos, Lula participa com oito ministros, na quinta-feira, de atividades do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. - Nada melhor que uma viagem longa para colocar os assuntos em dia e resolver as pendências - afirmou um ministro que assiste às querelas de perto. Ontem pela manhã, durante rápida reunião da Junta Orçamentária, da qual participaram também os ministros da articulação política, Lula disse que não pretende adotar um único critério na reforma ministerial. Conforme antecipou o Jornal do Brasil no último sábado, o presidente não pretende incorporar ao governo ministros-relâmpago - ou seja, possíveis candidatos em 2006 que teriam de deixar os cargos em abril do próximo ano - e exonerar os que tiverem pretensões eleitorais. - 2006 está longe. Muita gente que diz ser candidato agora pode não ser ano que vem. Por isso, além desse critério, haverá outros - afirmou Lula, fazendo mistério sobre os critérios que serão adotados na reforma. Segundo um ministro, o presidente deu a entender, no entanto, que o núcleo do governo - a articulação política - não sofrerá alterações. E suas preocupações com a descontinuidade administrativa se resumiriam a ministérios ''finalísticos'' - com verba e programas considerados prioritários pelo governo. Num dado momento da reunião, um dos ministros questionou a situação da senadora Roseana Sarney (PFL-MA) que, embora certa no governo, se declara possível candidata ao governo do Maranhão em 2006. Lula teria respondido que Roseana poderia até abrir mão da candidatura para permanecer no ministério até o fim do mandato. A conversa do presidente com os ministros não foi conclusiva porque Lula teve de sair às pressas para encontro-se com o primeiro-ministro da Espanha, o socialista José Luís Rodríguez Zapatero.