Título: Capítulo de uma trapalhada
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/04/2008, Opinião, p. A8

O DIRETOR-GERAL DA AGÊNCIA NACIONAL de Petróleo (ANP), Haroldo Lima, deve ter muitas virtudes, mas certamente lhe falta uma: a prudência. Se tal ausência não for perene, pelo menos se revelou no ruidoso, precipitado, displicente e "oficioso" anúncio na segunda-feira ­ o de que a área Carioca, situada no bloco BMS-9, abaixo da camada de sal da Bacia de Santos, pode ter reservas passíveis de extração de 33 bilhões de barris de petróleo. Os superlativos da descoberta, se confirmados, configuram um anúncio monumental: o volume na área liderada pela Petrobras é cinco vezes maior do que o do campo gigante de Tupi, estimado entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris. Será o terceiro maior campo de petróleo do mundo. O equívoco protagonizado pelo diretor resume-se ao fato de que ele antecipou informação que, pelo poder de fogo, poderia causar rebuliço no mercado. E causou. As ações da Petrobras deram um salto. Da platéia de executivos que o assistiam e correu em polvorosa para passar a notícia adiante à elevação na Bolsa de Valores durante o dia, Haroldo Lima produziu uma trapalhada por vários motivos. Primeiro, anunciou uma descoberta não confirmada pela própria empresa ­ ou, segundo o próprio admitiu, uma informação "oficiosa", extraída de uma revista especializada. Segundo, tratou de ativos de uma companhia de capital aberto. Terceiro, fez isso com o mercado acionário ainda em funcionamento. De uma só tacada, alimentou lucros decorrentes de uma ação especulativa e negligenciou o papel de uma agência reguladora. Embora tenha reafirmado ontem que lhe é direito, como au toridade, dizer o que disse, Haroldo Lima produziu uma distorção. Seria da competência da ANP antecipar informações de uma empresa fiscalizada pela própria agência? A resposta é óbvia. O chefe de um órgão regulador não dá uma declaração oficiosa. Quem deve informar uma des coberta do gênero é a empresa, de modo que todos os acionistas tenham acesso igualmente. É possível ser extemporâneo o debate se o anúncio feito pelo diretor num evento público merece ou não o rótulo de oficioso. O fato de a informação ter sido publicada, numa reportagem da revista World Oil, mostra ser aceitável que consultores façam estimativas acerca das reservas de petróleo. Problemático é que uma fonte oficial comente o tamanho das reservas como se tratasse de informação corriqueira. E, sabemos, não estava. Depois de começarem a segunda-feira acompanhando o mer cado internacional afetado pela crise dos Estados Unidos, as ações negociadas da Petrobras foram de uma queda de 0,86% a um pico de 7,57% de alta. Fecharam o dia na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em alta de 5,62%, enquanto a bolsa apresentou queda de 0,69%. Mesmo com a não-confirmação da Petrobras, as ações da empresa movimentaram R$ 2,2 bilhões, traduzidos na fatia de 48% do volume da Bovespa ­ contra costumeiros 19%. A Bovespa é uma bolsa de valores de grande porte, que hoje movimenta consideráveis R$ 6 bilhões por dia. Suas companhias listadas têm um valor de R$ 2,5 trilhões. E seus investidores, ao se sentirem prejudicados com o feito do diretor da ANP, querem agora processá-lo em ação por ressarcimento. A Comissão de Valores Mobiliários pedirá informações, e o Ministério Público investigará o caso. Se não der em nada, que pelo menos o episódio sirva de lição. A Haroldo Lima e aos demais dirigentes públicos. Como ensinamentos, devem ser tirados do costumeiro uso político que o governo faz das boas notícias produzidas pela Petrobras. Caso a descoberta se confirme (a Petrobras sugeriu ontem que serão necessários três meses de análises), o Brasil tem a chance de tornar-se o 8º produtor de petróleo no ranking mundial. Hoje é o 17º. Antes ­ e depois ­ dessa confirmação, convém sensatez. E prudência.